As mil e uma aventuras do príncipe Rajá – XII

XII – A rainha prisioneira (parte 1)

A rainha Isdora acordou confusa. Também estava muito tonta e enjoada. Lembrava da última vez que se sentiu enjoada, quase 11 anos atrás, quando descobriu que esperava o príncipe Rajá. Mas dessa vez, o enjôo era diferente, não era por um bom motivo. Junto com o mal estar, a rainha sentia um aperto no coração. A primeira coisa que notou foi que o rei Paxá não estava ao seu lado e que nem ela estava na cama certa. Em seguida, percebeu que o quarto também não estava certo, faltavam as suas cortinas amarelas, que filtravam a luz do amanhecer e davam uma claridade de sonho ao quarto. Também não ouviu o som de mastigação. O rei não estava comendo pãozinho com geléia e Rajá, com seus sapatinhos de pontas viradas para cima e turbante de pedrinha azul, não segurava para ela uma xícara fumegante de café fraco.

Com dificuldade, a rainha levantou da cama errada e começou a andar, explorando o quarto errado. “Onde é que eu estou”? – pensava, enquanto seus dedos deslizavam pelas cortinas vermelhas, que davam ao aposento uma luz irritante. Sobre uma mesinha, havia uma bandeja com comida. Alguém deixou café-da-manhã para ela, mas o café estava forte demais, o pãozinho não tinha geléia e faltavam também as frutas que ela tanto gostava. “Onde eu estou?” – A rainha sentia fome e mesmo não sendo o melhor desjejum que já tinha provado, comeu tudo o que estava na bandeja, como se não visse comida há semanas.

Depois de comer, foi até a porta do quarto, mas estava trancada. Tentou a janela, mas percebeu que ficava no alto de uma torre. Olhou para baixo e viu que a cidade aparecia bem pequenina. Os moradores iam e vinham nas tarefas do despertar, tão miúdos quanto formigas. Tentou gritar, chamar por alguém, mas ninguém conseguia ouvi-la daquela distância. Lágrimas quentes escorreram pelo rosto da rainha. Ela sabia onde estava. Sempre foi mais esperta que o marido e sempre desconfiou que isso aconteceria algum dia. “Mas onde será que ele está? O que está tramando? Onde estão meu marido e meu filho?” – pensava até a cabeça doer.

Isdora entendeu mais depressa que o seu rei, que não adiantava ficar desesperada, que aquilo era só o começo de um longo período de cativeiro, que talvez até durasse para sempre. Sem que ninguém precisasse contar a ela, compreendeu que era prisioneira na torre do mago Islamal, o meio-irmão de seu marido e conselheiro ambicioso do rei. “Ele estava esperando a chance de nos pegar e conseguiu…” – A rainha não entendia como Islamal havia dominado o reino e se preocupava com o que ele poderia ter feito ao marido e ao filho. Era difícil permanecer tranquila, sem saber do paradeiro de Rajá e de Paxá. Ela temia que algo de muito ruim tivesse acontecido ao marido, mas sentia que seu filho estava bem. “Longe de mim, bem longe, mas está bem, eu sei que está.”

Não enlouquecer, não perder o controle e nem tentar nenhum ato desesperado, como se jogar da torre nas nuvens, por exemplo. “Você precisa ficar bem Isdora, para descobrir o que está acontecendo…”

A rainha sabia que Islamal, como todas as criaturas perversas, se alimentam do desespero alheio. Ela não daria alimento à maldade de Islamal. Mesmo que se sentisse muito triste, preocupada, deprimida, desesperada, em pânico, como, aliás, ela se sentia, não iria demonstrar nada disso ao mago cruel. “Ele não vai me dominar”.

A rainha da Cidade de Ouro e Prata estava certa de que mais dia, menos dia, Islamal viria até a torre cantar vitória, ela sabia mais da maldade do mundo do que Paxá, pois Isdora tinha vindo do mundo exterior. Também conhecia corações frios como o dele e diversas vezes havia dito ao rei para mandar Islamal embora, mas seu marido era um bom homem, tinha o coração puro e nunca desconfiaria do próprio irmão.

Islamal viria, teria prazer em fazê-la sofrer contando os detalhes do seu plano diabólico. A rainha acreditava que havia um plano sinistro por detrás das cortinhas vermelhas que escondiam a janela da torre nas nuvens, da porta trancada e das ausências de Rajá e de seu marido.

“Tudo começou naquela noite em que Rajá nos mostrou números de magia… Se ao menos as lembranças não estivessem tão borradas na minha memória…”

Continua no próximo post

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Leia os outros capítulos da história:

>>Capítulo I: A cidade de ouro e prata
>>Capítulo II: A vida doce dentro das muralhas
>>Capítulo III: Uma gaiola dourada e um passarinho triste
>>Capítulo IV: O sinistro mago Islamal
>>Capítulo V: O pedido de Rajá
>>Capítulo VI: O plano de Islamal
>>Capítulo VII: Aprendiz de hipnotizador
Carta do príncipe Rajá aos pais
>>Capítulo VIII: A Floresta Sem Fim
>>Capítulo IX: A língua universal
>>Capítulo X: A feiticeira da lua crescente
>>Capítulo XI: O rei destronado (parte 1)
>>Capítulo XI: O rei destronado (parte 2)
>>Capítulo XI: O rei destronado (final)

7 pensamentos sobre “As mil e uma aventuras do príncipe Rajá – XII

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