Cinema, Reflexões

Um filme antigo para pensar na vida atual

Para falar a verdade, o filme nem é tão antigo assim, tem 11 anos. Mas, nesses tempos velozes, em que o comportamento e a sociedade – o que é in (na moda) e out (fora de moda) mudam tão depressa quanto os minutos que se leva para vestir uma camiseta -, digamos que o filme é antigo para os padrões atuais. A produção de um passado nem tão remoto assim a que me refiro é O casamento do meu melhor amigo, protagonizado, em 1997, pela estonteante Julia Roberts e a igualmente bela Cameron Diaz. Revi a comédia romântica esse fim de semana, numa das intermináveis reprises de canal fechado, e fiquei pensando na proposta do filme.

A história é bem simples. Quase água com açúcar, como a maioria das comédias românticas. Nada contra comédias românticas, de vez em quando é bom trocar as produções mais elaboradas, intelectuais, por filmes singelos, que fazem rir e chorar somente o período em que dura a sessão. O genial Alfred Hitchcock já dizia que cinema é entretenimento e se ele, que era um mestre, admitia isso, quem sou eu para discordar? Com todo o respeito aos filmes de arte, que eu admiro incondicionalmente (os bons, lógico!) e sem deixar de manter meu pézinho firme nos clássicos, não ignoro o impacto que as histórias românticas provocam. Cientistas e estudiosos do comportamento humano aliás, costumam disparar, vez por outra, afirmações do tipo: “Comédia romântica faz mal para a relação.”

A frase soa meio reducionista, porque na verdade, o que faz mal não é o filme em si. Enquanto produto da indústria de entretenimento, o filme cumpre sua função. Faz sonhar, transporta para outra dimensão longe da vida ordinária, apresenta príncipes encantados e princesas gentis. Nada diferente dos contos de fadas, nada diferente das novelas ou dos antigos folhetins que eram publicados nos jornais brasileiros do século XIX, ou ainda (se tiver alguma menina com mais de 50 lendo o post vai saber), das novelas de rádio do tempo das nossas mães.

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A questão é que existe um trato que nem sempre o espectador cumpre. Ou porque é sonhador empedernido ou porque tende a acreditar que aquele sonho ali é dos tais que pode virar realidade. Para algumas pessoas até vira. Conheço casais que vivem histórias belíssimas, de dar inveja em qualquer roteirista de comédia romântica. No entanto, a média da população vive mesmo a vida ordinária de todo dia e por ser ordinária, não quer dizer que seja ruim, apenas não é glamourosa como no cinema. Saber que o mundo ideal de mocinhas e galãs dura a hora e meia, duas horas da sessão, é um bom passo para não se contaminar com o efeito das comédias românticas. Do contrário, o que faz mal para a relação é não separar aquele mundo cor-de-rosa da tela, da vida real e ter de lidar com a frustração de que o mundo aqui fora é bem menos colorido.

É justamente nesse quesito que a produção protagonizada por Julia Roberts e Cameron Diaz se destaca no mar doce das comédias românticas. O final é perfeitamente possível dentro do nosso mundo real.

casamentoO enredo do filme é o seguinte: uma jornalista de sucesso (Julia Roberts), que escreve sobre gastronomia, tem um amigo (Desmont Mulroney) há nove anos, também jornalista e cronista esportivo. Os dois vivem se desencontrando. Ele é apaixonado por ela e ela ignora o sentimento. Até que o rapaz conhece outra moça (Cameron Diaz), uma estudante de arquitetura disposta a abrir mão da carreira para segui-lo para todo lado, enquanto cobre as temporadas de beisebol pelas cidades americanas. O sonho de todo homem, seja no cinema ou aqui no mundo real é que as mulheres abram mão da própria vida e se dediquem integralmente a eles. Pelo menos boa parte dos homens idealiza essa situação. Até aí, é perfeitamente possível também que uma mulher decida se sacrificar a esse ponto. Muitas já fizeram isso ao longo da história e nos dias de hoje, algumas ainda fazem. É uma escolha, vamos respeitar. O que não pode é ele querer impor a ela que largue tudo para segui-lo, ou vice-versa.

Acontece que, quando descobre que o amigo que a ama tanto vai casar com outra, a personagem de Julia Roberts descobre-se apaixonada por ele e, na iminência de perder o homem da sua vida, quer conquistá-lo a todo custo e roubá-lo da noiva. Convidada para madrinha do casamento, ela arma todos os truques, alguns muito desonestos, para levar a melhor. Daí, começa toda aquela sorte de situações mirabolantes que só os roteiristas de comédia romântica conseguem imaginar. Mas, as coisas não saem exatamente do jeito que a protagonista esperava…Não se preocupem, embora o filme tenha 11 anos, sempre pode ter alguém que nunca viu, não contarei o final.

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O que quero comentar é que, esse final também é perfeitamente possível dentro da sociedade que vivemos hoje e que, em 1997, começava a ser projetada. Existe um conflito nessa trama que não tem relação com o triângulo amoroso vivido por Roberts, Diaz e Dermont Mulroney. Existem escolhas a serem feitas por Julianne (a personagem de Julia Roberts) que passam por: decidir se ela realmente ama o amigo ou se ela só quer tirá-lo da noiva por competitividade; até que ponto ela está disposta a abrir mão de toda a sólida carreira que construiu em nome de seguir o amado enquanto ele se firma como cronista de beisebol mais respeitado do país? Esses questionamentos, quem traz a tona é outro personagem fantástico da trama, o editor de Julianne, George (Rupert Everett). Aliás, a melhor cena do filme é protagonizada por ele.

Me pergunto quantas vezes também desejamos alguma coisa apenas pelo ato de desejar? Quantos relacionamentos existem por aí em que tanto homens quanto mulheres desprezam o objeto amado enquanto estão juntos, mas tão logo se separem e a outra metade começa a reconstruir a própria vida, aquele que rompeu a relação quer retornar? Quanto estamos dispostas (os) a abrir mão dos nossos projetos para seguir os projetos dos nossos amados (as) sem nem tentar negociar um meio termo que mantenha os dois pacificados e felizes? Fico pensando nisso e concluo que as comédias românticas, com toda a sua dose excessiva de ilusão e açúcar, de vez em quando, são um mero espelho aumentado dos nossos anseios. A questão é saber quando refletir, mesmo com um filme despretensioso, e quando simplesmente deixá-lo na porta do cinema ao final da exibição.

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