Bala no Alvo, Cidadania, Cotidiano, Meio ambiente

“Há algo de podre” na atmosfera de Salvador

Hamlet entende disso melhor que eu, pois já farejava algo de pobre no reino da Dinamarca em tempos remotos. Mas a verdade é que o efeito estufa, o excesso de automóveis nas ruas, os esgotos a céu aberto e o lixo acumulado em cada esquina – a cidade está imunda, basta andar de ônibus para ver -, fizeram Salvador amanhecer na terça-feira, 31 de março, sob uma nuvem de mau-cheiro e calor nunca antes vista, sentida e cheirada na capital baiana. Segundo reportagem de A TARDE, moradores de 12 bairros se queixaram do fenômeno. Teve até gente que passou mal, com falta de ar, náuseas, dor de cabeça. (Leiam detalhes aqui).

Minha tia não mora em nenhum dos 12 bairros citados na reportagem, mas também sentiu o fedor de enxofre e produto químico lá em Periperi. A Vila Laura, cada dia mais desmatada, amanheceu coberta por uma neblina cinza escura, pesada, parecia que traria chuva, mas se chovesse, certamente cairiam gotas ácidas. Nesta quarta, 01 de abril, Dia da Mentira, o céu ainda era aquela cor enxaguada e desbotada que se vê em São Paulo. Piada de mau-gosto com os baianos amantes do sol e da brisa marinha. Nem de longe, aquele pedaço esfiapado de atmosfera lembrava o céu de brigadeiro da soterópolis.

O ar está abafado e os asmáticos, como eu, são os primeiros a notar que há algo de estranho no ar, ou na falta de ar, de cada dia.

Lembrei do príncipe criado por Shakespeare porque o mau-cheiro físico, provocado por, segundo os ambientalistas, uma inversão térmica que literalmente cozinhou toda a podridão de canos de escapamento, lixeiras e valas da capital, é uma metáfora perfeita, não fosse o desconforto que provoca, para toda a podridão que se esconde sob os tapetes, dentro dos prédios públicos, nos gabinetes e nos porões da ditadura. Sim, porque o jornal de hoje também traz matéria dizendo que a Bahia é campeã em esconder os documentos secretos desse tenebroso período histórico.

A natureza está nos dando o troco por séculos de revolução industrial, consumo desenfreado e esgotamento das reservas de ar e água limpos do planeta. Mas também pagamos o preço pela omissão enquanto cidadãos (de quem são os carros que poluem o ambiente? quem produz o lixo que nos soterra?); pela omissão enquanto eleitores (quem é que elege os administradores públicos que deveriam garantir saneamento básico, esgotamento sanitário, limpeza dos canais, recolhimento do lixo, monitoramento do ar?).

Meu filho de 11 anos, que cada dia me surpreende mais pela maturidade, foi taxativo: “isso é sinal do fim do mundo, mamãe!”. E ele não se referia ao apocalipse bíblico, que aliás nunca leu, e sim às aulas de biologia da escola. Antes de saber detalhes sobre a inversão térmica nos jornais, já discutíamos o assunto em casa, motivados pelo meu respirar sufocado e arquejante, cada dia mais difícil.

É muito triste descobrir que uma criança de 11 anos percebe que o mundo que legaremos para ela não passa de um doente terminal…

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