Autores, Dicas de leitura, Literatura

Fascínio pelo universo de Neil Gaiman

Da série, Migrações

Descobri a obra de Neil Gaiman graças a minha irmã, que é fã incondicional e tem todos os livros, a coleção dos quadrinhos da saga “Sandman” e o primoroso filme “Máscara da Ilusão” no seu acervo.  Li a estante inteira e aguardo ansiosa por mais….Migrei alguns comentários que fiz sobre as obras dele. Todos passionais, nenhum que se possa chamar crítica literária.

Também escrevi sobre Belas Maldições, a parceria de Gaiman com Terry Pretchett, e sobre Fumaça e Espelhos, um inquietante livro que reúne os contos mais sombrios do autor.  Este ano, Coraline, uma obra infanto-juvenil de Gaiman virou uma animação belíssima. Torço para que ocorra o mesmo com “Os lobos dentro das paredes”, um dos livros mais belos escritos para crianças que já li. Fala de ditadura, de opressão, de liberdade. Lembra A Revolta dos Bichos, de George Orwell.

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MINHAS LEITURAS DE NEIL GAIMAN

Sandman – O livros dos sonhos

“Somos o animal contador de histórias”
(Frank McConell)

livro-dos-sonhos-1Conheci o universo de Sandman e dos Perpétuos através de minha irmã, fã e ávida colecionadora dos quadrinhos de Neil Gainman. Através do que ouvia dizer de Sandman e dos Perpétuos, conheci a obra em prosa de Neil Gaiman e as primeiras coisas que li dele foram escritas para crianças e adolescentes, Morte – A Festa e Os lobos dentro das paredes. Fascinante é pouco para descrever o impacto. Minha fila de leitura é longa e eclética e muitas vezes, demoro anos para ler um determinado livro, embora o namore diariamente. Com a prateleira de Neil Gaiman, no quarto de minha irmã, aconteceu um namoro cheio de jogos de “cerca lourenço”. Quem não sabe o que é cerca lourenço é aquele jeito meio sonso de cortejar, querendo e desdenhando ao mesmo tempo. Diante das infindáveis opções, ela tem praticamente toda a obra do escritor em edições de luxo ou de banca de revista, me decidi por uma leitura fácil para não iniciados. O Livro dos Sonhos reúne contos de diversos autores americanos e britânicos que traduzem o universo onírico de Morpheu e seus irmãos Perpétuos. Para quem não está por dentro de todas as intrincadas tramas do reino do sonhar, embora seja uma sonhadora por instinto, é um bom começo. A frase de Frank McConell no prefácio do volume 1 (O livro dos sonhos tem dois volumes) “Somos o animal contador de histórias” me fez perceber que, ao avançar pelas páginas que misturam realismo fantástico, um pouco do terror sombrio do século XIX – muito mais de mistérios que de sangue e gosma – e principalmente, uma forma tão simples de contar histórias que simplesmente está tudo ali, bem ao alcance, mas sem ser rasteiro, me encontrei em meu elemento. Os contos vão do doce e ingênuo como Sete Noites na Terra do Sono, de George Alec Effinger; aos mais crus e realistas como O Ilusionista (Caitlín R. Kiernan); passando ainda por ternas histórias de amor – Farsa com Maré Alta (Collin Greenland). livros-dos-sonhos-2Terminei o volume 1 e o meu conto preferido é Chain Home, Low, de John M. Ford. Porque é ambientado na II Guerra, porque mistura noticias do front e pacientes com encefalite, a doença do sono; e, porque como nenhuma outra história da coletânea, permite embarcar na nebulosidade daquela nossa outra vida, a que compartilhamos com Morpheu e seus irmãos todas as noites, durante, dizem os cientistas, um terço de nossas existências.

Para quem quer comprar:

O livro dos sonhos volumes 1 e 2
Neil Gainman e Ed Kramer – organizadores
Conrad Editora
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Deuses Americanos

“O inverno enlouquece os deuses”.

deuses-americanosDizem que nossas leituras nos mudam. Talvez a mudança não dure para sempre. Só o tempo de viajar em outro livro. O que me fascina na leitura, desde criança, é essa capacidade de viver várias vidas dentro de uma só. Lendo Deuses Americanos, me senti um pouco Shadow, o ex-presidiário que percorre as estradas dos EUA buscando a si mesmo; Laura, a esposa de Shadow, transformada em morta-viva por obra de uma magia antiga; Odin – o pai de todos, o deus que não faz concessões; Czernobog, cinzento no inverno e dourado na primavera. Difícil não perceber cada um deles dentro de mim. Mais difícil ainda largar o livro após o ponto final, mesmo que tenha outro na fila. Leitores compulsivos e dotados de muita imaginação, por mais que acumulem camadas de leitura por cima de camadas de leitura, como o gelo sobre o lago de Lakeside, sempre guardam resíduos. Estou impregnada por frases, por diálogos inteiros, por reflexões sobre esse mundo mitológico criado por Gaiman em que deuses são homens como nós, se arrependem (alguns pelo menos) e morrem. Deuses velhos, tão antigos quando a Terra, duelam com os novos (a cultura pop, as drogas psicodélicas, a mídia, as celebridades de 15 minutos de fama). Vencedores e perdedores? Ora um lado, ora o outro. A balança precisa se manter equilibrada. Não somos o brinquedo dos deuses, eles não interferem no nosso destino. Nós os criamos, eles existem porque nós queremos. Somos nós os deuses. Não é à toa que os gregos atribuíram a cada criatura mágica do seu panteão uma fraqueza humana.

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Lugar Nenhum

lugar-nenhumEu e Richard Mayhew vagamos pelos subterrâneos de Londres, em busca de uma chave de prata que deve ser entregue a um anjo. Enquanto isso, o marquês de Carabas é torturado no porão abandonado de um hospital em ruínas. O velho dos corvos toma conta do coração pulsante do marquês, preso dentro de uma caixa dourada. Na Londres de Cima, diriam que nada disso descrito até aqui existe de verdade. Quem estiver lendo o post provavelmente vai pensar que caiu dentro do sonho de alguém, o que é bem parecido com entrar na sessão com o filme começado. Ler Neil Gaiman é quase isso, cair de sonho em sonho, até o amanhecer.

Um trecho de Lugar Nenhum:

– “Informação! Informação! – anunciou ele para a sala apinhada de gente. – Viu? Bem que eu disse. É preciso diversificar. Diversificar! Não dá para vender gralhas para fazer cozido o resto da vida. Elas têm gosto de sapato. O cozido fica grosso feito mingau. Você já comeu gralha?
Richard fez que não com a cabeça. Disso ele tinha certeza absoluta.
– O que você vai me dar? – perguntou Old Bailey.
– Como? – Richard sentia-se como se estivesse pulando de lá para cá, tentando manter o ritmo do raciocínio louco do velho.
– Se eu te der a informação. O que você me dá em troca?
– Não tenho dinheiro. E acabo de trocar minha caneta.”

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Coisas Frágeis

É tão delicado, como o título sugere, que mal consigo sussurrar um trecho da introdução…

“Histórias, assim como pessoas, borboletas, ovos de aves canoras, corações humanos e sonhos, também são coisas frágeis, feitas de nada mais forte ou duradouro do que 26 letras e um punhado de sinais de pontuação. Ou então são palavras no ar, compostas de sonhos e idéias – abstratas, invisíveis, sumindo no momento em que são pronunciadas -, e o que poderia ser mais frágil do que isso? Mas algumas histórias, pequenas, simples, sobre gente embarcando em aventuras ou realizando maravilhas, contos de milagres e de monstros, duram mais do que todas as pessoas que as contaram, e algumas duram mais do que as próprias terras onde elas foram criadas”.
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Os filhos de Anansi

“Todas as histórias pertencem a Anansi”.

Anansi, um deus bufão, trapaceiro e carismático.
Anansi, um deus bufão, trapaceiro e carismático.

Anansi, o deus-aranha africano, trazido nos negreiros para a América Central. Das ilhas do Caribe, chegou ao Reino Unido e de lá, aos EUA. “Todas as histórias pertencem a Anansi”. Esperto, trapaceiro, sedutor, brincalhão, exímio dançarino. Anansi, o dono das histórias, é transformado pelas hábeis palavras de Gaiman no senhor A. Nancy, um velhinho simpático, com luvas verde limão e chapéu panamá. Um deus antigo, bufão, vivendo entre homens. Ele tem dois filhos: Fat Charlie Nancy e Spider. O primeiro acha seu pai constrangedor, o segundo herdou os poderes do deus. O encontro dos irmãos, o caminho longo entre o mundo dos homens e dos deuses, a luta contra o ressentido e feroz Tigre, de quem Anansi, num passado remoto roubou as histórias… No início dos tempos, quando o tigre era o dono das histórias, a humanidade vivia uma época de trevas e terror. Mas Anansi roubou todas as lendas e ninguém mais conta histórias sobre o tigre. Anansi, com picardia, sutileza, sempre engana o tigre, o ridiculariza, humilha. E o tigre quer vingança… O senhor Nancy está morto e seus filhos não se entendem. Mas o sangue fala mais alto. Fat Charlie descobre o poder da música e com a canção, os poderes do deus aranha. Spider aprende que para viver entre nós, precisa ser mais humano e menos divino … A mitologia explicando a vida ordinária, é disso que o autor fala.

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