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Um pouco de literatura: Os Versos Satânicos

Salman Rushdie, autor de Haroun e o Mar de Histórias, livro do qual retirei o nome deste blog, ainda é jurado de morte dos xiitas. O motivo é o livro Os Versos Satânicos, lançado há mais de dez anos, mas que só tive acesso na maturidade. A leitura me impressionou, precisei de tempo para digerir. Na sequência li O Chão que ela pisa, igualmente avassalador. Por ora, falo de Os Versos Satânicos….

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“Para nascer de novo, é preciso morrer primeiro”.

versos-satanicos1Gibreel Farishta e Saladim Chamcha despencaram 30 mil pés sobre Londres. A metáfora usada por Salman Rushdie para descrever o estranhamento desses dois imigrantes indianos na Londres da era Thatcher pode servir como alegoria para qualquer situação em que o ser humano se sinta inadequado, estranho, em eterna adaptação. Os dois homens, hindus muçulmanos (esse é o livro que decretou a sentença de morte de Salman Rushdie diante dos xiitas) sobrevivem à explosão de um avião atacado por terroristas. Durante a queda das nuvens, sofrem o que o autor chama de metamorfose. Gibreel, o arcanjo, é um ator de sucesso, faz filmes teológicos e já interpretou um sem número de deuses do intrincado panteão hindu. Saladim, também ator, é um homem atormentado por demônios interiores, complexo de Édipo mal resolvido, relação tensa com o pai, frustração na carreira, inadequação com a própria cor da pele escura. Gibreel, ex-menino pobre das ruas de Bombaim, é a estrela histriônica e cheia de caprichos, mas que tem tanta luz dentro de si que recebe o perdão para todos os seus pecados antes mesmo de cometê-los. Essa intensidade o cega. Ofuscado pelo próprio ego, consumido pela paixão por si mesmo, pela humanidade, por Alleluia Cone, a alpinista que conquistou o Everest, embarca nos próprios devaneios, julga-se o mensageiro de Deus, o braço esquerdo da ira divina, o Arcanjo Gabriel encarnado. Perde o juízo e começa a viver a fantasia de sua infância, quando a mãe o chamava de “farishta” (anjo). Saladim, o menino rico de Bombaim, filho de um próspero fabricante de fertilizantes, rejeita a casa paterna, a cultura de seus pais, do país de origem. Ele quer ser inglês, falar, vestir-se, ter a cor dos britânicos. Também vive dentro de um sonho e tarde demais descobre que a velha Inglaterra das novelas de cavalaria não existe para além do cancioneiro dos poetas. Contar todas as mirabolantes reviravoltas do destino desses dois homens – um transmutado em anjo, o outro em demônio, é estragar o prazer, o susto, a confusão, a necessidade de digerir cada linha de Os Versos Satânicos. Basta dizer que é uma leitura fundamental para entender o eterno conflito oriente ocidente. Para ter o panorama completo que Rushdie deseja traçar não somente da Índia, mas de como a cultura molda o ser humano, na mesma medida em que é consolidada por ele, é preciso ir mais fundo no universo rushdiano e ler também O chão que ela pisa. Os dois livros se completam, embora tragam personagens e situações diversas. A sensação ao concluir as duas leituras é de ignorância completa. Senti-me incapaz, logo de cara, de dizer se entendi o recado. Fiquei confusa, sem saber se Rushdie queria mesmo dar um recado ou se os dois livros não são apenas a sua catarse, a sua forma de exorcizar os demônios da herança anglo indiana. Se tudo não passa da narrativa de um homem em conflito entre oriente e ocidente, mas que tem senso critico suficiente para olhar os dois mundos sem fazer concessões, sem piedade. É o melhor e o pior dos dois universos e é tão próximo da vida de qualquer pessoa, independente de ter nascido em Bombaim, Londres, ou em Salvador, que é difícil não traçar paralelos. Não vou dizer como a história acaba ou o que ela revela, porque digestão é algo muito particular, no ritmo próprio de cada um. Duas pessoas não digerem a mesma informação de maneira semelhante. Limito-me a dizer que o ciúme é a ruína do celestial Gibreel e o amor pode redimir o satânico Saladim. No fim, anjos parecem criaturas atormentadas e demônios, demasiadamente humanos. Ainda não assisti Slumdog Millionaire, não estou no clima. Mas duvido que Dany Boyle consiga traçar um panorama tão perfeito da cultura moderna e desvendar com tanta perfeição o paradoxo ocidente e oriente, quanto Salman Rushdie.

UM TRECHO DO LIVRO:

“A cidade moderna é o locus classicos de realidades incompatíveis. Vidas que não têm nada a ver umas com as outras se misturam, sentadas lado a lado no ônibus. Nas listras do chão do cruzamento, um universo é atingido por um instante, piscando como um coelho, pelos faróis de um veículo motorizado dentro do qual se encontra um continuo inteiramente estranho e contraditório. E contanto que não vá além disso, que passem na noite, que se acotovelem em estações de metrô, tirando os chapéus em algum corredor de hotel, não é tão grave…”

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7 thoughts on “Um pouco de literatura: Os Versos Satânicos”

  1. Somente agora tom,ei coragem p/ enfrentar as 500 e poucas páginas de Os versos satânicos! Confesso que eh uma leitura complexa, não é de fácil entendimento! Tem horas que dá vontade de largar a leitura… mas, não! Preciso ir até o fim e ter um pouco de conhecimento sobre a cultura islâmica! Boa sorte pra mim, né!
    Laertes

  2. Li esse livro em 2007 e achei belíssimo, forte, complexo. Realmente, nos deixa confuso e nos faz pensar, como todo livro bem escrito (e com alma) deve fazer! É um dos orgulhos da minha biblioteca pessoal! :)

    1. Oi Franko. Já tentou dar uma buscada em livrarias online como a Saraiva? O livro Os Versos Satânicos, do anglo-indiano Salman Rushdie, no Brasil foi publicado pela Companhia das Letras (editora que publica Rushdie no país). Recentemente, a Companhia de Bolso, um dos selos da editora, também o republicou. Olha o link aqui: http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/2591650/os-versos-satanicos-ed-de-bolso/?PAC_ID=18659 Você pode pesquisar em outros locais. A resenha aqui do blog é de março de 2009, quando li o livro, mas acredito que não esteja esgotado e em boas livrarias você encontra. Boa compra e boa leitura!

  3. Em versos satanicos,,encontra-se alguns paradoxos da existencia hhumana,,,,talvez ainda nao compreendidos,por nos,,

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