Baú de Histórias, Crônicas, Querido Diário

Conversa estranha na calada da noite

Da série Migrações

Algumas aventuras do viver são tão absurdas que beiram comédia pastelão. Já vivi meus dias de nonsense e migro a crônica para cá…

…………………….

Aconteceu há quase 12 anos. Era aluna da UFBA e no meu tempo, as aulas espalhavam-se ao longo do dia: duas de manhã, uma terceira no meio da tarde, mais duas à noite. Não sei que malabarismos éramos capazes de fazer para estudar e trabalhar, mas alguns estudantes conseguiam. Devo ter perdido os poderes mágicos que me permitiam controlar o tempo, porque nunca mais na vida consegui ser tão multitarefas quanto na época da faculdade. A aula naquela noite estava prevista para terminar às 21h, mas o professor era daqueles apaixonados pela disciplina e os alunos, ávidos por aprender. A aula terminou às 22h30. Nas imediações do campus do Canela não havia ônibus que me levasse para casa. O jeito era andar até o Forte de São Pedro e esperar no ponto próximo à descida da ladeira da Avenida Contorno. Para quem não é de Salvador, meus parcos conhecimentos geográficos não permitem descrição mais detalhada.

Basta que saibam que o lugar era deserto, muito deserto. Era um tempo na minha vida em que faltava dinheiro para táxi. Até porque, tinha de sobrar para fraldas. Estava no sétimo mês de gravidez, no penúltimo semestre do curso de jornalismo. Meu salário de estagiária em uma empresa de assessoria de comunicação não permitia luxo.

Encarei o ponto de ônibus deserto com desconfiança. As muralhas negras do Forte de São Pedro pareciam saídas de um filme do expressionismo alemão. Pensei que daria de cara com Nosferatu, mas o que aconteceu foi um pouco mais surreal e perfeitamente possível, dentro da realidade de uma cidade grande, depois das 22h. Um homem se aproximou de mim, parou na minha frente e disse: “eu ia assaltar a senhora, mas eu não assalto mulher grávida, porque ela pode levar um susto e perder a criança”.  Eu não sabia se batia no ladrão e gritava “seu… você já me deu um susto”, ou se corria. Não bati no homem e também não corri, porque a barriga não deixaria mesmo que eu tentasse. Respirei fundo e respondi: “olha moço, eu acabo de sair da aula e só tenho aqui um passe estudantil pra ir pra casa. Aqui tem minha mochila e se o senhor quiser olhar, pode olhar, mas só tem dois livros que peguei na biblioteca da faculdade, um caderno e um estojo de lápis. Repare que não uso bolsa, nem tenho carteira. Se o senhor levar meu passe, eu vou ter de ir para casa à pé, mas com essa barrigona vai ser complicado porque eu moro longe, no subúrbio”.

Essa parte do subúrbio era mentira, melhor dizendo, meia verdade. Nasci e passei metade da infância na periferia de Salvador, meu pai ainda vivia no subúrbio, mas eu já morava em um bairro central naquela época. Achei que precisava fazer um drama e convencer o ladrão de que eu não era bom negócio. Deu certo, o assaltante ficou com pena. Disse que ficaria ali me fazendo companhia até o meu ônibus passar. “É para evitar que algum malandro venha fazer mal pra senhora, eu tenho um respeito muito grande por mulher grávida”. Eu não sabia se ria da situação esdrúxula em que havia me metido ou se chorava, porque meu ônibus ia passar e o ladrão veria que eu menti. Meu medo era ficar marcada e ele desconsiderar a barriga e me assaltar numa próxima saída da aula.

Continuamos batendo papo. O ladrão falava e eu sacudia a cabeça, concordando com tudo o que ele dizia. Não tirava o olho da esquina de onde viria o ônibus e não sabia se rezava para o coletivo chegar logo ou não chegar. Uma coisa eu pedia a Deus, “não mande nenhum ônibus de bairros suburbanos”. Devia ser mais um daqueles dias em que Deus está de ouvidos desentupidos ou então no silêncio da noite, só tinha mesmo aquela quase mãe de 22 anos ali parada no meio da rua, tentando lembrar orações da infância (“santo anjo do senhor…”) e o ‘pai de todos’ ficou comovido. Quase meia hora depois, enquanto eu ouvia o ladrão monologar sobre a sua dura vida de assaltante, um casal se aproximou para também esperar um coletivo. Logo em seguida, apareceu mais um homem. O ladrão então bateu no meu ombro e disse: “agora a senhora tem companhia demais, já vou viu. Avise para o pai desse moleque que ele tem obrigação de vir buscar a mulher na escola”.

Achei desnecessário explicar ao ladrão que tratava-se de uma produção independente.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s