Baú de Histórias, Crônicas

Cadê o avião?

Da série Migrações

Meu filho viajou sozinho pela primeira vez no ano passado. Sozinho é modo de dizer, o guri tinha só dez anos, ainda longe de fazer alguma coisa sozinho. Mas viajou com a escola, sem pai nem mãe. Ele adorou, está chegando na idade do “minha mãe me faz pagar cada mico!”. Quem pagou mico fui eu, e diversos outros pais e mães…

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Quinta-feira de um dia de novembro, 9h20 da manhã. Aeroporto Internacional de Salvador. Uma fila de crianças eufóricas e uma mixórdia de pais (e mães) tensos aguardam a hora do embarque. Bilhetes à mão, mochilas às costas, as crianças entram no terminal. Um adeuzinho, uma corrida de última hora para um derradeiro abraço, beijos lançados da ponta dos dedos. Do lado de cá, mães enxugando lágrimas discretamente, nem todas, algumas choravam sem pudor; pais esticando-se na ponta dos pés, os baixinhos, para um último clique com celulares ou câmeras digitais que cabem no bolso da calça. “Vamos para o mirante ver o avião sair”, sugere uma mãe particularmente entusiasmada. Vão todos, não em fila, com o passar dos anos os adultos perdem completamente o senso de ordenamento ensinado pelas professoras. “Qual é a plataforma de embarque deles?”, pergunta um. “É a número 4”, responde uma mãe mais bem informada, uma que teve serenidade para ler atentamente o bilhete de viagem que o filho chacoalhava na fila de embarque. Olhos em direção à plataforma 4. “Que avião é o deles?”, alguém no meio da multidão de pais e mães questiona. “Eles vão viajar pela Gol”. Então beleza, na plataforma 4 tem um avião da Varig. Ninguém conhecido ou importante o suficiente para fazer aqueles quase 80 pais e mães se atrasarem no trabalho vai viajar em um avião da varig, então, o negócio é esperar o avião da Gol, aquele do rabinho laranja. Bate-papo, suspiros, meu filho é isso, minha filha é aquilo, os pais (e mães) se entretém no fascinante jogo das comparações dos talentos infantis. O avião da Varig inicia o processo de taxiamento, se apruma, aponta o bico para o céu, começa a correr, atira-se no ar (que coisa incrível isso de avião, um troço pesado pra caramba, levantar voo com tanta graciosidade). Chega uma aeronave da Gol e encosta na plataforma 4. “Aquele deve ser o deles”, surge uma voz de esperança na multidão e um olhar nervoso para o relógio. “Esse avião não ia sair às 9h20, já são 10h e agora que ele encostou na plataforma!”. Espanto geral, indignação pelo atraso do voo, especulação sobre o estado de nervos das crianças no salão de embarque, um pai mais decidido resolve ir até o guichê da companhia se informar. Volta cinco minutos depois, os outros 79 pais (e mães) cercam o embaixador para assuntos de viagens estudantis e fazem a clássica pergunta, em bom baianês: “e aí velho, cadê o avião?”. O pai, rindo às gargalhadas, sussurra alguma coisa no ouvido da esposa, que também cai no riso. Depois, anuncia teatralmente: “Sabem aquele avião da varig que estava na plataforma 4 quando chegamos aqui? pois é pessoal, aquele era o avião que levou os nossos filhos. No guichê me informaram que a Gol comprou a Varig e que ainda não trocaram as bandeiras das aeronaves, aquele era o voo dos meninos”. Frustração, palavrões (vamos manter o bom nível do blog), gargalhadas, risos nervosos, alguém diz que é o mico do século, merece registro, outros reclamam da companhia aérea, que não avisou da troca, os mais sensatos (ou mais acomodados) apenas suspiram e ficam vasculhando na memória, tentando colar os pedaços da cena quase indiferente do avião da varig ganhando os ares.

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