Cotidiano, Crônicas, Querido Diário

No buzú, aperta que dá!

Da série Migrações

Lata de sardinhas

“Não abra mais a porta motô, aqui não cabe mais ninguém”. Lata de sardinha, lata de gente, Luis Anselmo/Pituba, sucursal do inferno em forma de ônibus. Uma cena que pensei ter ficado para trás, na adolescência, na época do famigerado Itinga/Pituba, meados dos anos 90, retorna para assombrar os tempos modernos: gente pendurada na porta, equilíbrio precário, a qualquer hora um despenca, lá se vai o motorista responder processo e as assistentes sociais da empresa de transportes engabelar a família que perdeu o parente.  “Aperta que dá minha gente, vamo passano aí…” – o cobrador estimula. “Só se um viajar na cabeça do outro, não tá veno que não cabe”, responde a passageira indignada. “Quando subir a ladeira da Cruz da Redenção melhora pessoal, vamo colaborar”, continua o cobrador.

Certas histórias são cíclicas em Salvador, essa do ônibus lotado é uma delas.

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Uma ajuda pelo amor de deus

Alô, Deus, você está aí? Tem um homem de moletas aqui neste ônibus, com uma ferida horrenda na perna, com as mãos estendidas pedindo “uma caridade em Seu Nome”. Você ouviu o homem? Deus, alô…. ligação ruim. Não se preocupe, cuide dos seus assuntos celestes, eu ouvi o homem…

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Caminhos de Periperi

Minha tia mora longe. O caminho até sua casa, até o reencontro com a infância, é longo. Avenida San Martin, tabuletas de lojas de ferragens; Calçada, o belo prédio da estação de trens; Feira do Rato, microcosmo de mercadorias lícitas e nem tão honestas; Lobato, me chama atenção a creche Heroínas do Lar, das pobres e aguerridas mães suburbanas. Itacaranha; uma nesga de mar azul; extensão interminável da recém asfaltada avenida suburbana… Na casa de titia, ajudante de cozinha, como boa baiana, embora desbotada, provo que sei mexer um vatapá. “Não esqueça os pedidos na hora de servir o caruru dos meninos”. Não esqueço. Peço muito, embora setembro tenha ficado para trás, ainda é tempo de celebrar os ibejis.

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 A mousse

Experimento a proeza de transportar uma mousse de chocolate, dentro de um ônibus, da Vila Laura até a rua Oito de Dezembro, na Graça. Doeram os braços, mas valeu a pena ver as carinhas de felicidade, os gemidos de prazer, a gula daquelas meninas…

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