Cotidiano, Crônicas

Hamburguer de baiano

Da série, Migrações

No meu caminho para casa, na hora do rush, a moeda solitária vira um acarajé sem camarão. Ansiedade pela noite de sexta-feira, provocada pelo barulho na rua, trânsito congestionado, alunos entrando e saindo do campus de uma faculdade, vendedor de cachorro-quente na esquina, cheiro enjoado de molho de tomate dormido. Uma música, Loreenna Mckennitt, uma pequena paixão que divido com um caro amigo. Ele ouvia Loreenna para lembrar de mim, eu a ouço para esquecer quem sou, para me transportar para as paisagens medievais da Irlanda, que eu nunca vi de perto, pelo menos não nesta vida.

O acarajé está bom. Massa leve, crocante, faz tempo que não como um tão bem feito. A pimenta fere a língua, mas certas feridas são boas de carregar, outras custam bastante. Noite de nostalgia, de entrega aos pensamentos melancólicos que vez por outra se insinuam. Contas a pagar, a matemática nunca foi meu forte. Dinheiro existe para gastar.

Atravesso o estacionamento vazio de um centro comercial, ainda tem espaço no estômago para uma coisinha gelada. Cerveja?! Não, milk-sheik de morango. Bem gelado, o sorvete, que só é colocado no final, não derretou por completo, ficou bem pastoso, o gelo alivia o ardido da pimenta. Um riso. Que mistura surreal! Acarajé (hamburguer de baiano) com milk-sheik, bebida de adolescente americano. Ficou um gosto de infância, reminiscência de outras misturas esquisitas: biscoito doce com maionese era a preferida para acompanhar a sessão da tarde.

Atravesso a praça em frente ao shopping mais conhecido da cidade. Virou território livre para os ambulantes. Churrasquinho de gato, bolsas de gosto duvidoso. Uma cantora evangélica tenta me vender a sua fé que eu não quero comprar. Do outro lado da praça, pagodão de letra impublicável. No ponto de ônibus, muitos rostos, uma mãe vestida num longo roxo segura um garoto de mochila nas costas. Mais ambulantes. Gente cansada, gente absorta nos próprios pensamentos, “universos ao meu redor”, com o perdão da licença poética de Marisa Monte.

Vem o ônibus, vazio, ou quase. Tem lugar para sentar. Experimento o transe de me saber no mundo e sentir-me fora dele. Enxergo a paisagem, mas na minha memória ela é igual, porém diferente. Observo as casas, as ruas, e Loreenna continua me levando para longe…

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