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Violencia e covardia

violencia-simboloCada vez que leio uma reportagem sobre aumento de índices de violência contra a mulher e me deparo com as estatísticas alarmantes das delegacias especializadas, me pergunto por que? Por que um homem vai para o bar no fim de semana, beber com amigos, e a bebida, ao invés de fazê-lo esquecer, lembra-o da vida fracassada e quando retorna para casa, bate na mulher? Por que, se ele perde o emprego, bate na mulher? Por que, se o seu desempenho sexual é insatisfatório, bate na mulher? Por que, se ele é humilhado pelo chefe no emprego, bate na mulher? Por que, se ele é um inseguro, ciumento e possessivo, sem autoestima, bate na mulher? Alguns diriam, porque ela reclama com ele por estar bebendo. Ou porque ela, lavando, passando, cuidando dos filhos, trabalhando fora, lembra-o do seu fracasso. Ou ainda, porque ele é homem e um homem não deve aceitar certas humilhações. E uma mulher pode? Minha resposta é simples, covardia. Os homens são covardes para lutar por seus direitos, são covardes para enfrentar seus fracassos, são covardes para procurar ajuda médica e curar sua disfunção erétil, são covardes para lutar por uma vida melhor, são covardes para discutir a relação, são covardes para usar argumentos e por isso se afogam em bebida e em violência. As estatísticas das Deams (Delegacias de Amparo a Mulher), mostram que os índices de agressão crescem nos finais de semana, na mesma proporção em que crescem as doses de álcool no sangue.

Campanha da OAB-SP para conscientizar as vítimas a denunciar os agressores
Campanha da OAB-SP para conscientizar as vítimas a denunciar os agressores

O machismo ainda presente, arraigado, e a sensação de que as mulheres são uma possessão, um domínio a ser preservado, também estão por trás de tanta barbárie. É a lógica do mais forte dominando o mais fraco. E sim, fisicamente temos menos músculos, nossos ossos são mais leves. Mas será que somos mesmo mais fracas? Porque, acredito, mesmo diante do silêncio daquelas que não denunciam, existe no mínimo a força de uma mulher que aguenta calada todo o tipo de sofrimento, nem que seja para preservar a casa onde vive com os filhos e a comida que os alimenta. Existe força nisso! Existe força em se sacrificar, mas não somos mártires. Por isso, pelo amor de Deus, denunciem. Denunciem maridos, namorados, pais, filhos, seja quem for, qualquer homem que levantar a mão contra uma mulher merece ser denunciado, merece ser preso, julgado e condenado. Denunciem esses covardes, mostrem a eles que sua força não está no silêncio e que vocês não querem ser santas para sofrer caladas, não estamos mais na Idade Média. Apesar da necessidade que leva muitas mulheres a se calar, mostrem a disposição de lutar contra uma injustiça milenar. Denunciem vizinhos ou quem quer que seja. Conscientizem outras mulheres para se levantarem contra a agressão. Essa covardia precisa parar!

Denuncie: DEAMDelegacia Especial de Atendimento à Mulher Engenho Velho de Brotas – Salvador – BA. Tel: (71) 3245-5481

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Saiba mais:

A crônica que reproduzo abaixo é do escritor Lima Barreto e foi publicada no jornal Correio da Noite, Rio de Janeiro, em 27 de janeiro de 1915. Na ocasião, diversos casos de crimes ditos passionais estampavam diariamente as páginas dos jornais. O que me assusta é que, 94 anos depois desta crônica, os jornais ainda estampam cenas semelhantes!

“Não as matem…”

Esse rapaz que, em Deodoro, quis matar a ex-noiva e suicidou-se em seguida, é um sintoma da revivescência de um sentimento que parecia ter morrido no coração dos homens: o domínio, quand même, sobre a mulher.

O caso não é único. Não há muito tempo, em dias de Carnaval, um rapaz atirou sobre a ex-noiva, lá pelas bandas do Estácio, matando-se em seguida. A moça com a bala na espinha, veio morrer, dias após, entre sofrimentos atrozes.

Um outro, também, pelo Carnaval, ali pelas bandas do ex-futuro Hotel Monumental, que substituiu com montões de pedras o vetusto convento da Ajuda, alvejou a sua ex-noiva e matou-a.

Todos esses senhores parece que não sabem o que é a vontade dos outros.

Eles se julgam com o direito de impor o seu amor ou o seu desejo a quem não os quer. Não sei se se julgam muito diferentes dos ladrões à mão armada; mas o certo é que estes não nos arrebatam senão o dinheiro, enquanto esses tais noivos assassinos querem tudo que é de mais sagrado em outro ente, de pistola na mão.

O ladrão ainda nos deixa com vida, se lhe passamos o dinheiro; os tais passionais, porém, nem estabelecem a alternativa: a bolsa ou a vida. eles, não; matam logo.

Nós já tínhamos os maridos que matavam as esposas adúlteras; agora temos os noivos que matam as ex-noivas.

De resto, semelhantes cidadãos são idiotas. É de supor que, quem quer casar, deseje que a sua futura mulher venha para o tálamo conjugal com a máxima liberdade, com a melhor boa vontade, sem coação de espécie alguma, com ardor até, com ânsia e grandes desejos; como é então que se castigam as moças que confessam não sentir mais pelos namorados amor ou coisa equivalente?

Todas as considerações que se possam fazer, tendentes a convencer os homens de que eles não tem sobre as mulheres domínio outro que não aquele que venha da afeição, não devem ser desprezadas.

Esse obsoleto domínio à valentona, do homem sobre a mulher, é coisa tão horrorosa, que enche de indignação.

O esquecimento de que elas são, como todos nós, sujeitas a influências várias que fazem flutuar as suas inclinações, as suas amizades, os seus gostos, os seus amores, é coisa tão estúpida, que, só entre selvagens deve ter existido.

Todos os experimentadores e observadores dos fatos morais têm mostrado a insanidade de generalizar a eternidade do amor. Pode existir, existe, mas, excepcionalmente; e exigi-la nas leis ou a cano de revólver é um absurdo tão grande como querer impedir que o Sol varie a hora do seu nascimento.

Deixem as mulheres amar à vontade.

Não as matem, pelo amor de Deus!

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