Como assim minha cor acabou?!

manicure-kit“Primeira coisa para lembrar antes de sair de casa: pegar meu alicate. Não confio naquelas estufas que mais parecem os forninhos onde a minha mãe torrava pão quando eu era pequena. Na dúvida, levo o meu de casa. Bactéria por bactéria, prefiro as minhas do que as dos outros. Cheguei ao salão, num sábado de manhã. Primeira contrariedade do dia. Minha manicure, aquela que entende os sentimentos das minhas unhas e sabe o quanto minhas cutículas são sensíveis, estava ocupada com outra freguesa. Aqui na Bahia a gente não diz cliente, cliente é coisa do povo do sul/sudeste, aqui tem a freguesa da carne, o freguês do pão, a freguesa dos temperos verdes e a freguesa da unha. E freguesa tanto serve para quem vai adquirir o serviço, quanto para quem oferece. Opa, comecei a viajar na maionese, é o hábito de professora, não me furto em dar uma aulinha de baianidade para quem quiser ouvir. Voltando para minhas unhas sensíveis. Elas acordaram de mau-humor. Horrorosas, meio descascadas, quebradiças. Em “petição de miséria”, como diria Rosa, minha manicure, se não estivesse bem ali, ocupada com as unhas de outra freguesa. Pois bem, sentei e fiquei esperando Rosa ficar livre. Ela sorriu, deu uma piscadinha e disse que depois daquela mão, havia ainda um pé e mão, outro pé, para finalmente chegar a minha vez. Fiquei revoltada porque eu tinha ligado antes de sair de casa. Depois, sentei e peguei uma revista, suspirando e tentando digerir o fato de que as manicures nos tratam como mãos e pés. São os alicates do oficio. A revista era daquelas de fofocas, mas tava vencida. Salão pequeno, de bairro, não tem assinatura de Caras ou Contigo, temos de nos contentar com as genéricas de 1,99. O casamento que a capa da revista anunciava já tinha sido desfeito. Eu li na internet. Fiquei lá, perdendo meu sábado, sentada num salão, sentindo cheiro de produto químico, acetona e esmalte de unha. Ser mulher não é fácil. Só as mulheres, e os metrossexuais, aguentam ficar no salão por quase quatro horas seguidas, esperando vaga na sua manicure preferida. Meu marido diz que é doença. Mas ele adora os dias de manicure. Ajustamos certinho. Eu vou deixar minhas unhas sensíveis aos cuidados de Rosa, ele vai para o baba. Para quem não sabe, baba é o nome daquele jogo de futebol em campo de várzea, que os maridos organizam no fim de semana, dizendo que vão praticar exercício. Sei, levantamento de copo e olhe lá. Neste sábado em questão, eu tinha de ficar com unhas belíssimas porque de noite tinha o casamento da sobrinha do meu marido. Para matar o tempo, resolvi escovar o cabelo também. Desisti do penteado desgrenhada-chique que vi numa revista. Basicamente consiste em pegar o cabelão, o meu é comprido, jogar pra cima e enfiar grampo pra todo lado, deixando umas partes assim meio soltas, caindo na cara. Mas uma boa escova é mais prático e combinada com unhas brilhantes, daria tudo certo. Sou boa maquiadora, então dessa parte eu mesma cuidaria. Finalmente, Rosa arrastou a cestinha e a cadeirinha dela para o meu lado. Olhou minhas unhas com ar de neurocirurgiã e começou o ritual do corta, lixa, descarna. Entre um bife e outro, ela é ótima, mas de vez em quanto arranca uns filés dos meus dedos, chegamos a parte do esmalte. A minha cor estava em falta!!! Como assim em falta? Há anos eu pinto unha nesse salão!! Rosa sugeriu uma outra cor. Ficou bom, mas eu não gostei não. Quero meus bifes e o meu esmalte preferido de volta”.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s