Crônicas

Algumas lições que aprendi sendo autoimune

Da série, Migrações

O artigo que segue, escrevi em julho de 2008, numa viagem a  São Paulo. No hotel, assisti um programa de TV e depois, as reflexões renderam o texto abaixo.

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Só quem é autoimune sabe a loucura que é ter um corpo que briga consigo mesmo. Uma sensação meio esquizofrênica, que se for procurar direito nos anais da psiquiatria ou psicologia, ou até psicoterapia, vai ter um freudiano pronto para dizer que a autoimunidade reflete algum bloqueio ou trauma do passado, de origem sexual, de preferência reprimida.

Assistindo um daqueles programas americanos, estilo documentário, meio jornalístico, mas que trata de casos estranhos, doenças esquisitas e raras – mais freak show que notícia – fiquei pensando se autoimunidade pode mesmo ser confundida de forma tão rasteira com autopunição.

Sem querer entrar no mérito religioso da questão e nem discutir crenças espirituais e cármicas, tem muito teólogo debatendo sobre os deveres, obrigações e resgates de vidas passadas e como não sou versada em religião, embora acenda minhas velinhas, prefiro encarar a questão à luz da razão e daquilo que, como autoimune, entendo sobre ter as próprias células jogando no time adversário.

O programa americano, que não lembro o nome e nem o canal fechado onde estava passando, mostrava uma doença dessas bem raras, são apenas 500 casos no mundo descritos pela literatura médica. O portador dessa síndrome sofre um processo de calcificação dos tecidos e das articulações. Em estágio avançado da doença, explicando a grosso modo, a pessoa fica com o corpo rígido, transformado todo em ossos ou pelo menos no material que compõe os ossos.

Uma jovem mostrada no programa havia perdido quase todos os movimentos do corpo, mas ainda assim mantinha a esperança de que a cura para o seu problema seria encontrada e que ela iria concluir a faculdade, casar e viver uma vida dita “normal”.

Olhando as bochechas rosadas da moça tetraplégica fiquei me perguntando: Como alguém assim, tão cheia de esperanças e planos, tão ansiando por futuro, pode estar somatizando alguma culpa reprimida?

Não tenho a resposta final, mas estou empenhada em refletir a questão. Não descarto explorar com mais detalhes as teorias psicológicas que explicam a somatização de doenças. Admito que existem situações realmente estranhas de explicar como a gravidez psicológica. Considero até aprender mais sobre religião, carma e darma. Mas ainda assim, fica sempre aquela pulguinha atrás da orelha e começo a trazer o problema para dentro do meu espelho. “Estou me punindo por alguma coisa dessa vida ou da outra? É falta ou excesso de autoestima?” Minha resposta, pelo menos até o momento, é não. Nem excesso ou falta de autoestima e nem autopunição. Um exame detalhado de consciência mostra que está tudo no lugar, um escorregão aqui e outro ali, algumas palavras ditas e outras não ditas, mas nada que justifique a ideia de culpa cristã.

Entendo é que os autoimunes perderam a loteria genética. Dentro das trilhões, zilhões de possibilidades de combinação dos cromossomos paternos e maternos, alguma coisa saiu do padrão. A ciência não sabe explicar, mas corre atrás das causas, a religião conjectura suas explicações cármicas, a psicanálise investiga o subconsciente e autoimunes como a moça americana de bochechas rosadas, vivem, sonham e brigam dia após dia contra a teimosia das próprias células, dispostos a comprar o passe de todas elas e trazê-las para o lado de cá do gramado.

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