Conte-me um conto

Li o conto abaixo, do escritor britânico Neil Gaiman e divido com vocês.  Bolinhos de bebê está na coletânea Fumaças e Espelhos, Contos e Ilusões, que reúne algumas das histórias fantásticas do autor. Os contos desse livro são sobrenaturais, mas extremamente humanos, perfeitamente ordinários como o cotidiano, e ao mesmo tempo espantosos, alguns até embaraçosos. O que somos senão uma coletânea de histórias, “tão sem originalidade quanto qualquer outro conto, Tão únicos quanto qualquer outra vida”? Sempre gostei de admirar o ir e vir da vida alheia, nos bastidores, sem interferir,  apenas colecionar rostos, possíveis histórias, cores desbotadas ou intensas, restos de conversa. Essa capacidade de ler a vida como um conto ordinariamente comum e justamente por isso, tão peculiar, me aproxima da literatura de Gaiman. Quem já leu Bolinhos de bebê no outro blog, vale reler. E quem ainda não conhece, eis a história:

BOLINHOS DE BEBÊ

Alguns anos atrás, todos os animais foram embora.
Acordamos uma manhã e eles simplesmente não estavam mais lá. Nem mesmo nos deixaram um bilhete ou disseram adeus. Nunca conseguimos saber ao certo para onde foram.
Sentimos sua falta.
Alguns de nós pensaram que o mundo tinha se acabado, mas não tinha.
Só que não havia mais animais. Não havia gatos ou coelhos, cachorros ou baleias, não havia peixes nos mares, nem pássaros nos céus.
Estávamos sós.
Vagueamos por aí, perdidos por um tempo, e então alguém observou que, só porque não tínhamos mais animais, não havia motivo para mudar nossas vidas. Não havia razão para mudar nossa dieta ou parar de testar produtos que podem nos fazer mal.
Afinal de contas, ainda havia os bebês.
Bebês não falam. Mal podem se mexer. O bebê não é uma criatura racional, pensante.
Fizemos bebês.
E os usamos.
Alguns deles, comemos. Carne de bebê é tenra e suculenta.
Esfolamos suas peles e nos enfeitamos com elas. Couro de bebê é macio e confortável.
Alguns deles, usamos em testes.
Mantínhamos seus olhos abertos com fitas adesivas e pingávamos detergentes e shampoos neles, uma gota de cada vez.
Nós os marcamos e os escaldamos. Nós os queimamos. Nós os prendemos com braçadeiras e plantamos eletrodos em seus cérebros. Enxertamos, congelamos e irradiamos.
Os bebês respiravam nossa fumaça, e, nas veias dos bebês, fluíam nossos remédios e drogas, até eles pararem de respirar ou até o sangue deles não correr mais.
Era duro, é claro, mas necessário.
Ninguém podia negar isso.
Com a partida dos animais, o que mais podíamos fazer?
Algumas pessoas reclamaram, claro. Mas elas sempre fazem isso.
E tudo voltou ao normal.
Só que…
Ontem, todos os bebês se foram.
Não sabemos para onde. Nem mesmo os vimos partir.
Não sabemos o que vamos fazer sem eles.
Mas pensaremos em algo. Humanos são espertos. É o que nos faz superiores aos animais e aos bebês.
Vamos bolar alguma coisa.

Uma dica:

fumacas-e-espelhosFumaça e Espelhos, Contos e Ilusões
Autor: Neil Gaiman
Editora: via lettera, 2004
Saiba mais sobre o livro clicando aqui.

3 pensamentos sobre “Conte-me um conto

  1. Pingback: Paula Cajaty » Coisas frágeis, o noir de Neil Gaiman

  2. Pingback: Fascínio pelo universo de Neil Gaiman « Mar de Histórias

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