Conto, Literatura

Carta de Leninha para Marilu

Marilu,

Acordei com vontade de dizer o que sinto diante da nossa amizade. Continuo me sentindo como aos quatro anos, quando você nasceu e eu te olhei e não sabia direito o que fazer. Me disseram que você ia ser uma amiga para brincar comigo, mas você era tão pequena que eu não sabia para quê você serviria numa brincadeira.

É meio esquisito para as pessoas entenderem que dentro de uma criatura única podem caber sentimentos tão estranhos em relação aos amigos. Mas os meus sentimentos com você são esquisitíssimos. Amar as pessoas e ao mesmo tempo se irritar com elas a ponto de ficar com raiva. E não são poucas às vezes em que tenho raiva de você. Dizer impropérios, usar palavras duras numa discussão e meia hora depois sorrir e fazer declarações de amor. Parece coisa de gente doida, desequilibrada emocionalmente e a explicação está mesmo na emoção. É que existem tantos sentimentos para sentir, tantas paixões para viver e tantas coisas que magoam e ao mesmo tempo emocionam.

Não consigo ter a sua capacidade de analisar as coisas sem me envolver com elas. Não consigo admitir que as pessoas que eu amo não sentem igual a mim. Pior, não aceito que elas tenham defeito, porque quando as vejo só vejo a perfeição do sentimento que tenho por elas. Freud explica e se ele não souber explicar, estou mesmo encrencada. No entanto, eu mesma tenho tantos defeitos, tão grandes e os amigos aceitam. Você, o meu marido, todos aceitam.

Aceitam tanto que dá desconfiança. Esse é o meu lado paranóico falando. E muitas vezes, depois das nossas brigas, fiquei pensando o que é que a Marilu vê em mim? Porque ela não me manda pastar logo de uma vez? O que será que ela pensa de mim? É importante saber, embora eu saiba e você saiba também que não vou mudar. Nunca vou deixar de ser mandona, de ignorar o que não quero ver por pura birra mesmo.

Nem lembro mais o motivo da nossa última briga. E é ridículo mulheres da nossa idade nos comportarmos como quando tínhamos dez anos. Ficar de mal? Bom, se quer saber não estou de mal com você. Também não é pedido de desculpas porque não lembro quem começou a briga.

Hoje à tarde, no horário de sempre, o chá estará sobre a mesinha de centro com aqueles biscoitos que você adora. Zoraide fez bolo de fubá. A porta não está trancada, nunca está. Quando chegar, suba até o gabinete, estou terminando o trecho de um artigo para aquela revista feminina. Com certeza você vai botar defeito, mas vou publicar assim mesmo.

beijos,

Leninha.

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