Bala no Alvo, Cidadania, Crônicas

Estamos novamente em campanha

Meu bairro hoje amanheceu embrulhado em santinhos. Estamos em campanha. Não eu, a cidade. Todos nós, feliz ou infelizmente. No muro da padaria, dezenas de caras redondas de um candidato sorridente me deram bom dia. Não lembro o nome dele, nem o número, muito menos o partido. Lembro apenas que pensei, ‘ai meu Deus, a campanha já chegou por essas bandas’.

Logo adiante, depois da padaria, o muro que cerca o canteiro de uma obra estava pintado. Não eram avisos de “cuidado, homens trabalhando”. Eram mais nomes e números de candidatos dos quais não me recordo. Algumas janelas dos edifícios da minha rua também exibiam bandeiras de candidatos, com nomes, números e partidos. E tudo o que eu consegui pensar, sem um pingo de patriotismo, muito menos civismo, admito, é que teremos dois meses de ruas sujas e árvores cortadas para fazer santinhos de candidatos de cara redonda, lustrosa e sorridente.

Pensei em Saramago, em Ensaio sobre a Lucidez. O livro começa com uma eleição para um cargo administrativo numa cidade perdida na geografia não referenciada desse autor. Um lugar que pode ser em qualquer país, mas que os leitores sempre imaginam como sendo Portugal, a pátria do escritor. Mas que, pode ser também o Brasil, a pátria dos leitores como eu. Na eleição de Ensaio sobre a Lucidez, toda a cidade decide votar em branco. Nem um único voto é dado a candidato nenhum. Simplesmente, voto a voto, os papeizinhos que saem das urnas estão imaculadamente brancos. É o que basta para que se monte um aparato que envolve governo, forças armadas, psicanalistas, espiões de agência secreta… Todo o alto comando do sistema se une para descobrir onde está a ‘célula terrorista’ que espalhou a doença do voto em branco, quem teve a ousadia de protestar contra os candidatos, de questionar o sistema se recusando a votar?

Comparecer à repartição para assinar o título de eleitor é obrigatório no país fictício de Saramago e no meu também. Mas daí a escolher entre o ruim e o pior de todos, são outros quinhentos trocados em miúdo. Lembrei da minha adolescência, no século passado, e da grande campanha que uma professora “subversiva” capitaneou na escola, usando seus adolescentes e apaixonados alunos como cabo eleitorais. VOTE NULO! Grandes cartazes de cartolina, o símbolo do Anarquismo (graças a Deus!!!!!) desenhado com caneta piloto preta. Era uma escola pública, eram alunos adolescentes negros e brancos pobres, “que são quase pretos”, como diria Caetano (mas que nem de longe sentem na carne os efeitos de nascer com a pele escura no país da “democracia racial” e da “mestiçagem”); cujos pais bradavam em casa que não acreditavam mais no sistema, mas que não sabiam como fugir do dito cujo. Era a geração do impeachment de um presidente, sabiamente orquestrado por uma grande campanha de marketing que olha só, fez os adolescentes acreditarem que foram eles que tiraram o presidente!

Senti saudades daquela época em que eu era ingênua a ponto de acreditar que meia dúzia de cartolinas pintadas iriam mudar os rumos de uma eleição. Infelizmente, minha consciência ecológica era menor do que a paixão pelo ato de protestar contra o SISTEMA. Ele, o grande irmão, em letras imensas e milhões de ideias de estudante pobre que lia George Orwell na biblioteca da escola. Se eu tivesse a consciência ecológica de hoje, não desperdiçaria tantas árvores fazendo cartazes. Vem daí, das folhas mortas, prensadas e transmutadas em celulose, a minha irritação com os santinhos dos candidatos.

Vem disso e da cara de pau das criaturas, das mesmas promessas de sempre… “Mas é pelo voto que podemos mudar essa realidade”. Hum rum, siga em frente, vá lá e vote. Eu gostava mais das cédulas de papel, onde era possível desenhar o símbolo do anarquismo, só por nostalgia…

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