Voz e voto

Esta página tem o objetivo de preservar os artigos que escrevi durante as eleições para prefeito em Salvador, em 2008. Há bem mais aqui de indignação enquanto cidadã do que reflexão de ciência política. Como eleição é fruta que dá de dois em dois anos, a página vai sendo atualizada de acordo com o grau de sandices da política nacional…

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2010 – Deslocada para cobertura de Política

(Uma ironia do destino que me fez bem):

A cobertura chegou ao fim no dia 31 de outubro. Dilma Rousseff (PT) foi eleita a primeira presidente do Brasil, com 56,05% dos votos válidos.  Um marco histórico é esta chegada de uma mulher à presidência. Reflito sobre o assunto aqui neste artigo.

>>Reportagens novas da equipe:

1 - Internautas protagonizam embate Nordeste x Sudeste

2 – Candidatos adotam poucas mudanças on line para o segundo turno

3 -Na reta final, candidatos apostam nos ataques pessoais

>>Novas infografias após o primeiro turno:

- Resultado da eleição em cada estado


- Evolução dos candidatos nas pesquisas do segundo turno

- Total de votos na Bahia

- Perfil dos governadores eleitos

>>Mais uma infografia no ar: Passo a Passo da votação.

>>Efeito Obama tupiniquim? Especialistas fazem um balanço da campanha on line em 2010. No twitter, os candidatos não dão conta da demanda dos internautas.

>>Candidatos protagonizam as clássicas gafes de campanha. Este ano, o mico é high tech.

>>Esses aqui dizem que querem se eleger pelo bem do povo, ou então, que suas candidaturas bisonhas são uma forma de protesto. Sei…

>>Mais reflexões: Enquanto os internautas fazem campanhas criativas em favor do voto nulo, rechaçando a ideia de escolher “um mal menor”, ou um “candidato meia boca”, O TSE deixa de fora os esclarecimentos sobre o fato de que votos brancos e nulos não alteram o resultado do pleito, de acordo com a legislação eleitoral brasileira. No entanto, creio que a reflexão também deve ser feita no sentido de que, independente do que dizem os engajados, quem cria essas campanhas se considera sim um eleitor consciente e exercendo o democrático direito de dizer não ao mais do mesmo de toda eleição. Ao meu ver é uma forma de protesto tão lícita quanto a de quem defende seu candidato com a paixão dedicada ao time de coração. Sendo que, as vezes, declinar do direito de escolher entre o ruim e o menos pior é uma atitude sensata, sobretudo no atual contexto político do Brasil, em que esquerda e direita amalgamaram-se em alianças partidárias no mínimo, estranhas. Que ninguém governa sozinho é fato, mas que velhos adversários ferrenhos e baluartes da esquerda radical e da direita reacionária agora comunguem no mesmo altar é para desanimar mesmo o eleitor mais atento aos noticiários. Nem todo mundo é desmemoriado…

>>Primeiras experiências em produzir infografia em flash (infos animadas para a internet). A colaboração nesse setor, além das repórteres da equipe, veio do publicitário Leandro Actis, nosso anjo da guarda, porque consegue traduzir graficamente as nossas “viagens”. Veja aqui a página de infografias do site.

>>Doações de campanha via internet não engrenam no Brasil. Mais uma matéria bem feita por minha pupila do coração :)

>>Reflexões de uma cobertura eleitoral: 2010, o ano da eleição via redes sociais no Brasil. Na onda Barack Obama (de 2008), os políticos brasileiros capitalizam nas redes e até promovem encontro de blogueiros. (leia aqui). A desvantagem é que manifestações expontâneas e escrachadas (dizem as boas línguas, uma característica dos brasileiros), rapidamente são convertidas em estratégia de campanha. Vide o Dilmaboy, que agora foi oficializado (leia aqui).

>>Minhas pupilas no hotsite Eleições 2010, do portal A TARDE On Line, são motivo de orgulho. A nossa nova empreitada: uma reportagem especial sobre os jingles de campanha, publicada em página inteira da edição impressa deste domingo de A TARDE e montada com bastante multímidia no portal. Leia aqui a reportagem on  line.

>>Mais uma pautinha do hotsite: “Dilmaboy“. Continuo orgulhosa da minha pequena repórter. A ‘mini-editoria’ recebeu reforço de peso, outra menina que promete no jornalismo…

>>Link para o Hotsite de Eleições que edito: www.atarde.com.br/eleições2010

>>Pautei esta matéria: Primeira Semana da Campanha 2010 na Internet. E fico orgulhosa de que a repórter tenha feito um trabalho tão gratificante. Modéstia a parte, não vi essa pauta em nenhuma outra mídia. Não com esse foco.

>>Link para uma reflexão sobre os gastos da campanha publicado aqui no blog: O preço do voto ou o “cabide de emprego” de uma eleição

>>Abaixo, os links de reportagem especial que fiz sobre eleitor/internauta de primeiro voto. Muito bom voltar a apurar matéria depois de cinco anos longe da rua (da reportagem). Editores devem escrever mais vezes, faz bem para a cabeça e o coração:

Texto principal: Eleitores “calouros” estão de olho nos candidatos na rede

Link 1: “Eleitor 3.0 exige interatividade”, diz especialista

Link 2:
Jovens avaliam postura dos candidatos na internet

Link 3: Corrida eleitoral invade redes sociais

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2008 – Eu queria correr léguas da editoria de Política:

Estamos novamente em campanha

Meu bairro hoje amanheceu embrulhado em santinhos. Estamos em campanha. Não eu, a cidade. Todos nós, feliz ou infelizmente. No muro da padaria, dezenas de caras redondas de um candidato sorridente me deu bom-dia. Não lembro o nome dele, nem o número, muito menos o partido. Lembro apenas que pensei, ai meu Deus, a campanha já chegou por essas bandas. Logo adiante, depois da padaria, o muro que cerca o canteiro de uma obra estava pintado. Não eram avisos de “cuidado, homens trabalhando”. Mais nomes e números de candidatos dos quais não me recordo. Algumas janelas dos edifícios da minha rua também exibiam bandeiras de candidatos, com nomes e números e partidos. E tudo o que eu consegui pensar, sem um pingo de patriotismo, muito menos civismo, admito, é que teremos dois meses de ruas sujas e árvores cortadas para fazer santinhos de candidatos de cara redonda, lustrosa e sorridente. Pensei em Saramago, em Ensaio sobre a Lucidez. O livro começa com uma eleição para um cargo administrativo numa cidade perdida na geografia não referenciada do escritor. Um lugar que pode ser em qualquer país, mas que os leitores sempre imaginam como sendo Portugal, a pátria do escritor, mas que pode ser também o Brasil, a pátria dos leitores como eu. Na eleição de Ensaio sobre a Lucidez, toda a cidade decide votar em branco. Nem um voto é dado a candidato nenhum, simplesmente, voto a voto, os papeizinhos que saem das urnas estão imaculadamente brancos. É o que basta para que se monte um aparato que envolve governo, forças armadas, psicanalistas, espiões de agência secreta, enfim, todo o alto comando do sistema se une para descobrir onde está a célula terrorista que espalhou a doença do voto em branco, quem teve a ousadia de protestar contra os candidatos, de questionar o sistema, simplesmente se recusando a votar. Comparecer à repartição para assinar o título de eleitor é obrigatório no país ficticio de Saramago e no meu também. Mas daí a escolher entre o ruim e o pior de todos são outros quinhentos trocados em miudo. Lembrei da minha adolescência, no século passado, e da grande campanha que uma professora “subversiva” captaneou na escola, usando seus adolescentes e apaixonados alunos como cabo eleitorais. VOTE NULO. Grandes cartazes de cartolina, o símbolo do Anarquismo (graças a Deus!!!!!) desenhado com caneta piloto preta. Era uma escola pública, eram alunos adolescentes negros e brancos pobres, “que são quase pretos”, cujos pais bradavam em casa que não acreditavam mais no sistema, mas que não sabiam como fugir do dito cujo. Era a geração do Impeachment de um presidente, sabiamente orquestrado por uma grande campanha de marketing que olha só, fez os adolescentes acreditarem que foram eles que tiraram o presidente!  Senti saudades daquela época em que eu era ingênua a ponto de acreditar que meia duzia de cartolinas pintadas iriam mudar os rumos de uma eleição. Infelizmente, minha consciência ecológica era menor do que a paixão pelo ato de protestar contra o SISTEMA, ele, o grande irmão, em letras imensas e milhões de idéias de estudante pobre que lia George Orwell na biblioteca da escola. Se eu tivesse a consciência ecológica de hoje, não desperdiçaria tantas árvores fazendo cartazes. Vem daí, das folhas mortas, prensadas e transmutadas em celulose, a minha irritação com os santinhos dos candidatos. Vem disso e da cara de pau das criaturas, das mesmas promessas de sempre… “Mas é pelo voto que podemos mudar essa realidade”. Hum rum, siga em frente, vá lá e vote. Eu gostava mais das cédulas de papel, onde era possível desenhar o simbolo do anarquismo, só por nostalgia.

(um dia qualquer de julho de 2008, após a liberação da campanha eleitoral pelo TRE)

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É pra escolher um candidato ou assistir vale-tudo?

luta-livreDa infância lembro que o horário eleitoral gratuito era sempre aquele programa muito chato, cheio de sujeitos esquisitos, prometendo coisas que não tinham intenção, nem a mais remota, de cumprir. Alguns anos depois, infância deixada lá nos idos da década de oitenta, o horário eleitoral gratuito continua sendo um programa muito chato, cheio de sujeitos cada dia mais esquisitos, prometendo coisas das mais mirabolantes e ainda sem a menor intenção de torná-las realidade. A diferença – será que é mesmo diferente ou a memória anda me traindo? – é que agora, o tempo do espectador se perde através de um desfiar sem fim de acusações, baixarias, direitos de resposta e outros truques aplicados por quem não tem muito o que oferecer ao eleitor e então apela para o espetáculo da troca de dossiês e acusações. Rende audiência, porque tem quem goste. Se é para ver vale-tudo, prefiro assistir aos brutamontes lutadores de MMA. Para os leitores mais antigos, MMA é uma versão século XXI dos “telequetes” dos anos 60/70 protagonizados por Ted Boy Marino e outros musculosos assemelhados. Pois bem, zapeando pelos canais fechados, pulo de um combate para o outro e me divirto bem mais com as coreografias simulando esmagamentos de crânio, chutes nos rins e no saco, ui, sem piedade nenhuma e caras e bocas de machos raivosos, i’m bad baby, really very bad!!. Continuo sem opção para votar em prefeito na minha cidade e o pleito é daqui há um mês, mas já estou por dentro de todo o circuito internacional de luta livre.

(setembro de 2008)

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Não tem como não comentar

O atual prefeito de Salvador, João Henrique Carneiro, foi reeleito neste domingo com uma maioria impressionante de 58% dos votos válidos. O adversário era do PT, Walter Pinheiro. Muita gente que conheço disse que não votou em Pinheiro porque tanto o presidente Lula quanto o governador Jaques Wagner são petistas e, que democracia se faz com oposição. Só que, João Henrique passou a campanha dizendo que era aliado de Lula. Seu partido, o PMDB, é da base aliada da presidência da república. Seu padrinho, Geddel Vieira Lima, além de ser peemedebista, é ministro da integração do governo Lula!! Alguém por favor desvende os misteriosos caminhos da política para mim, porque essa tal de oposição está aonde mesmo, que eu não vi? Não votei em Pinheiro, por desconhecer seu passado político, por não ser petista ou de qualquer outro partido, e porque sim, concordo que democracia se faz com oposição honesta. Também não votei em João Henrique, porque vivo em Salvador desde que nasci e sei bem quais são os problemas da minha cidade, agravados nos últimos quatro anos por total e completa incapacidade administrativa do prefeito reeleito para fazer “oposição” aos seus próprios aliados. Como diz meu filho de 11 anos, já citado em outra ocasião: “isso é uma incoerência!”. Votei nulo, porque protesto de verdade, na minha modesta opinião de cidadã, se faz através da recusa em escolher entre o ruim e o menos pior. Não me dêem candidatos porcaria, porque neles eu não voto. No dia em que os brasileiros aprenderem a recusar os candidatos meia-boca que se apresentam engomados no horário eleitoral da TV, com certeza a realidade desse país vai mudar. Não vesti verde, que é minha cor preferida desde criança, mas agora, infelizmente, é cor vilipendiada por João. Também não vesti vermelho, porque eu não sou uma filha tardia do comunismo, que aliás não deu certo. Vesti preto, a cor do luto no ocidente. Estou de luto por Salvador, pelos próximos quatro anos de conchavos e descaso e por ser governada por Geddel, o titereiro que comanda o marionete João Henrique.

(Outubro de 2008)

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