Esta página tem o objetivo de reunir as crônicas, reflexões pessoais e um pouco das minhas frustrações com o Carnaval de Salvador, festa a qual sou obrigada a “cobrir” (jorgão jornalístico que significa relatar, retratar, divulgar…), por motivos de compromisso profissional. Nada contra a festa ou quem gosta de aproveitar cada um dos seus momentos, apenas não me encaixo nela.
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CARNAVAL de 2012
Mais do mesmo – Quem tem medo de careta?
No plantão da sexta-feira de Carnaval, um colega me perguntou: “Andreia, você gosta de Carnaval?” Respondi contando a historinha do meu trauma de infância…continue lendo
Visão do paraíso no Carnaval
Nem só de traumas de infância é feito o meu Carnaval. Embora continue não me encaixando na festa e nunca tenha levado meu filho para ver o trio passar – e, sinceramente, não creio que tenha feito falta a ele até hoje -, resgatei do baú essa foto do primeiro Carnaval de Snaky Theu… continue lendo
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CARNAVAL DE 2011
Primeiro dia – Sensibilidade mediúnica
“A minha cisma com o Carnaval é energética. Minha ortodontista, que é espírita, diria que é mediúnica. Segundo ela, tenho sensibilidade para perceber essa aura pesada, de loucura e descontrole, que toma conta do país”…continue lendo
(04/03/2011)
Segundo dia – Papo de bêbado perde!
“Éramos cinco criaturas “indormidas” e com mais duas horas de plantão pela frente. Passava das duas da madrugada e a conversa começou por acaso. Alguém comentou sobre um antepassado português e uma coisa foi puxando a outra, num novelo emaranhado em muitos fios”…continue lendo
(05/03/2011)
Terceiro dia – Descarnavalizada!
Não tou no mood do Carnaval esse ano nem para falar mal da festa. Não mais do que o clássico “I hate Carnaval” de todo ano. Tou “descarnavalizada” e usando as palavras para refletir questões outras, sobre comportamento e sexualidade feminina. Mas que, pensando bem, tem relação com a folia também…
(06/03/2011)
Quarto dia – Enfim, um intervalo!
De folga. Nem lembro quando foi a última vez que consegui um dia de descanso em pleno Carnaval :)
(07/03/2011)
Quinto dia – No meio do caminho – do buzu – tinha…
…três muquiranas montadas na gueixa barangada; dois filhos de Gandhy com o pescoço vergado de colares (“é pra trocar por beijo, mainha”), nem respondi. Dois palhacinhos, (gêmeos, fofuchos!), uma baiana (legítima, com os aparatos de vender acarajé e tudo), e de resto, trechos e mais trechos de cidade deserta, naquele silêncio de feriado que em outros momentos eu tanto gosto, mas que este ano, também está na vibe errada. Sei não, ou eu estou mais impaciente que de costume ou a energia desse Carnaval está esquisita demais!
(08/03/2011)
Sexto dia – Acabou, mas nem vou chorar
Nada a declarar, a não ser que o Carnaval acabou e que é Dia Internacional da Mulher. Nem estou pensando no refrão de Ricardo Chaves, tampouco pretendo chorar o the end. Alívio, puro e simples. É só!
(08/02/2011)
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CARNAVAL DE 2010
Sexto dia – Fim de Caso
Fiquei tentada a contar quantas vezes a expressão “os foliões foram ao delírio” apareceu nas reportagens dos jornais impressos, na internet, twitter, e nas transmissões de rádio e tv ao longo dos seis looooongos (incrível como o tempo se arrasta quando estamos entediados) dias de carnaval. Também fiquei com vontade de contabilizar quantas mil vezes os coitados dos foliões “pegaram fogo”, incendiados pelos artistas da (música) do (gênero) axé music. Matei a charada: todas as celebridades cantantes e carnavalescas de Salvador nasceram com um grande complexo de Nero. A pobreza de vocabulário da humanidade cresce em progressão geométrica, mas numa cobertura dessas – ao vivo e em tempo real – é que tudo se complica. O tema também não ajuda muito, preciso ser justa com meus colegas da imprensa. Onde, pelo de Deus, achar criatividade para narrar 24 horas ininterruptas, durante seis dias cansativos, das mesmas canções (!) e das mesmas piadas, ditas pelos mesmos artistas, que fazem os mesmos duetos, e despertam as mesmas reações de pessoas que querem mais é beijar na boca e perder o juízo (e os tímpanos) atrás do trio? Ou o ácido que os foliões baianos tomam tem efeito prolongado, ou então, nossa mídia cada dia mais delirante não percebe os micos que paga em rede nacional ( internacional, no caso da internet e do twitter) .
Caí em tentação – Comi açúcar viu gente. Não aguentei. Minha droga, todo mundo que me conhece, sabe, chama-se chocolate e açúcares diversos. Após cinco dias de abstinência, – na verdade tem uns três meses que os açúcares foram retirados da minha bolsa que era a verdadeira Disneylândia da redação – tem gente que ainda lamenta o fim da festinha -, decidi comer um pavê (era pequeno, juro) de ameixa e leite condensado (nham nham!!!) e tomei uma latinha de refrigerante – guaraná, que me dá uma sensação de ser mais natureba que os outros sabores -, apenas para comemorar o fim do Carnaval. É merecido, admitam aí, mais que merecido. E o pavê tava delicioso! Sou um animal analcoolico (com exceção de um bom vinho tinto seco) e também faço a linha cara limpa, lavada e careta. Substâncias perigosas dentro do corpo, só mesmo a comida contaminada de agrotóxicos nossa de cada dia, e suggar, oh honey honey – God save the bees!
Plantão - Acabou às 4h30 da manhã. Um recorde meu povo, vivaaaa! Saí do jornal antes das 5h30 e antes de começar minha “sinfonia de pardais”. Tudo bem, não era bem assim uns pardais legítimos do Herivelto que cantaram pra mim nas manhãs “indormidas” do plantão, eram os clássicos bem-te-vis e mais algumas espécies de passarinho “vira-lata” lá no jardinzinho do jornal. Mas ontem eu dispensei a orquestra. Até o ano que vem meninos! Colegas feministas, segundo meu filho, futuro biólogo, “passarinhas” não são muito de cantoria.
Digno de nota nos seis dias de festa – O tiranossauro-rex de Bell Marques fazendo cocô na avenida. Não tou delirando, o barato do açúcar costuma ser light, mas é que entupiu o banheiro do trio, que desfilou deixando um rastro de m… no circuito. Cabe muita interpretação aí, inclusive a mais óbvia: o Chicletão tá c… e andando pros foliões que pagam fortunas (antecipadamente) para desfilar no bloco.
(17/02/2010)
Quinto dia – A bela adormecida
Apaguei. Feito uma lâmpada queimada, simplesmente apaguei. O plantão da segunda de Carnaval terminou às 5h30 de terça. Graças às ruas vazias e a agilidade do motorista do jornal, cheguei em casa às 5h50, mas perdi o espetáculo do sol nascendo. Banho. Cama. E apaguei. O príncipe coitado, bateu com a cara na porta. Matou o dragão, arrancou, na base da moto-serra, os arbustos de espinhos da floresta, mas ao chegar ao castelo, nem apelando para o beijo “desentupidor de pia”, conseguiu me acordar. Nem Clark Gable conseguiria, até porque, tinha mau hálito, está na biografia da Vivien Leigh. Coma profundo por umas cinco horas seguidas. Eu devia isso ao meu corpo…
Tempo relativo – É impressão minha ou este Carnaval demorou a passar? Ou sou eu que estou mais entediada e mais impaciente? Mais velha, com certeza, e provavelmente muito mais ranzinza também.
Filha de foliã - Minha mãe relembra seus antigos carnavais. Improvisamos um “rango” e ela recorda os tempos de colombina. Imagina que saía do plantão no hospital e ia para o clube Fantoches da Euterpe. Desfilava em bloco também, de mortalha! Pulava até não mais poder e na hora de voltar ao hospital, trocava de roupa no elevador mais próximo. Devo ter sido trocada na maternidade…
Segunda de Momo - Eu preciso mesmo comentar isso? O repertório não varia, as estrelas trocam de roupa tanto quanto Beyoncé, talvez para compensar a pobreza de repertório. Um repórter do jornal foi agredido por dois cordeiros de bloco. Ironia do destino, a pauta do rapaz era mostrar como a vida dura de segurar a corda que segrega o Carnaval de rua de Salvador pode se tornar um prazer por desfilar no bloco da celebridade preferida, de graça.
P.S.: Tem umas criaturas aí que ficam tentando me ler nas entrelinhas. Se reparassem direito veriam que sou mais transparente que água mineral. Tudo o que quero dizer tem um único sentido, aquele que atribuo às minhas palavras.
(16/02/2010)
Quarto dia – Alice no país das maravilhas
Me sinto meio Alice quando chega o Carnaval. Meus dias e noites se invertem radicalmente. Os plantões comuns, que terminam por volta de 2h da madrugada nos meses “normais” do ano – dos quais gosto muito, porque existe um horário meio mágico, de quietude, entre às 23h e 01h -, transformam-se em noites inteirinhas em claro, quando chegam os famigerados seis dias de fevereiro. É muito estranho chegar em casa com o sol nascido e sair para trabalhar com o manto da noite. Fica uma sensação de sonho, de que vivemos uma realidade alternativa, paralela. O dia, meio “ressaqueado”, por dormir com o sol arrobando a janela. Tenho a impressão de que caí pelo buraco do coelho branco e passei a viver a vida de outra pessoa, que a verdadeira eu está perdida em algum lugar, atrás de um espelho, tentando achar uma saída, querendo voltar…Falta de sono regular também dá uma zonzeira e uma coisa meio parecida com dor-de-cabeça e cabeça pesada, deve ser a outra eu querendo reocupar seu posto de titular das minhas vontades.
O Carnaval no domingo – Teve um belo espetáculo de Moraes Moreira no Campo Grande e de Armadinho na Barra. O cortejo afro passou as 2h da manhã na orla, mas pouca gente viu, uma pena. Essa questão da fila dos blocos (com os afros sempre no final) é uma polêmica antiga e uma injustiça histórica, que sem dúvida, está recoberta com as camadas do “racismo cordial dos baianos”. O domingo também teve direito a uma declaração de Gil, que a meu ver, foi infeliz. Perguntado por uma repórter se achava que o pagode Lobo Mau incita a pedofilia, o ex-ministro, cantor e compositor, me saiu com essa: “Mas a chapeuzinho não pode ser uma mulher adulta”? Lamentável que alguém de inteligência tão brilhante, capaz de compor letras tão belas, seja machista. Então, por ser uma mulher adulta, a chapeuzinho do pagode pode ser “comida” de lobo. Se tiver mais de 16, é presa fácil, “é só passar o rodo” como diz a rapaziada. Se for mais nova é que não dá, porque aí é crime, “é barril”, sei. E por favor, ninguém venha perder seu tempo tentando me explicar a natureza das fantasias sexuais, não sou a madre tereza e tampouco a virgem maria. Só não aceito é o estereótipo, a categorização das mulheres em caça, enquanto aos homens cabe o título de caçadores supremos. Letras como Lobo Mau, para mim, são uma apologia ao “macho pegador” e machos pegadores, definitivamente, não estão na minha lista de espécies que mereçam proteção contra a extinção.
P.S.: Não saiu nenhuma linha na imprensa, em nenhum veículo, sobre o tiroteio na Vila Laura. Meus vizinhos também ouviram e me confirmaram hoje que foram dois helicópteros da PM. Houve uma batida policial numa área especialmente perigosa do bairro, que culminou com a troca de tiros entre policiais e supostos criminosos.
P.S.2: A cantina do prédio do jornal fechou às 21h30 de domingo, sendo que a redação funcionou até 0h e a redação online (a minha) até 5h da madrugada. Como eu tomei vergonha na cara e risquei o excesso de doces do cardápio (uma fatia de bolo eu não dispenso, ainda mais com café, hummmm…nham nham!), não tinha na bolsa meus antigos kits de sobrevivência (chocolates, balas e outras coisas açúcaradas), além dos indefectíveis fandangos). Passei o plantão na companhia dos roncos do meu estômago. Muito desagradável.
Anotação mental: lembrar de levar uma “merenda” saudável para o plantão desta segunda-feira.
(15/02/2010)
Terceiro dia – Tiros em Columbine
O plantão do sábado de Carnaval terminou às 5h de domingo. Cheguei em casa às 5h40, mais ou menos. Após um banho e a tentativa de fazer o fluxo de adrenalina no sangue acalmar, para poder dormir, recebi nova descarga elétrica: tiros, centenas deles – tal qual fogos de artificio, mas o som é inconfundível – roubaram o descanso dos domingueiros que, às 6h10, tentavam descansar em suas casas. O tiroteio (que assim que acordei, às 12h30, após conseguir finalmente descansar por volta de umas 7h30) não estava noticiado, até este horário, em nenhum site local! É o Carnaval, não sobra espaço para mais nenhuma notícia. Os tiros duraram bem uns cinco minutos, até as pedras ouviram. Pouco tempo depois – coisa de dez minutos depois – um helicóptero da PM chegou à região onde moro, eram pouco mais de 6h da manhã, fez um sobrevoo no bairro que durou meia hora, voava tão baixo, que da minha janela vi o soldado, metralhadora ou qualquer coisa que o valha em riste. Um tiroteio numa zona densamente populosa, próximo a uma das regiões que fazem a ligação da cidade (a Rótula do Abacaxi), um helicóptero da polícia dando rasante nas janelas das pessoas e nem uma linha na imprensa local! É o Carnaval e minha intenção não é fazer rima engraçadinha.
A festa da violência - Coincidentemente, durante a noite de sábado, editei bem umas três matérias que falavam da violência nos circuitos da folia. Na Barra e no Campo Grande, foliões que saem de casa com o espírito armado, provocam tumultos, cobram velhas dívidas, agem de forma truculenta gratuitamente. Um senhor, que passava próximo a um bloco, levou um chute no rosto, que veio de dentro das cordas. Mas bloco não é coisa de privilegiado, dos bem nascidos da elite? Mas quem disse que a violência também, e principalmente, não mora no coração dos playboys da classe média? Um outro folião foi barbaramente espancado e levado para o HGE com suspeita de duplo traumatismo (toráxico e craniano). O rosário de miséria desfia-se noite após noite, e sabe-se lá o que acontece nos becos desertos que margeiam a ilha de “felicidade fake” televisionada e protagonizada pelas estrelas do axé que só querem mesmo exibir como aprenderam direitinho o “rebolation”.
(14/02/2010)
Segundo dia – Trânsito muito louco
Acabo de reparar que essa narrativa “carnavalesca” versão 2010 está cinematográfica demais. Deve ser a nostalgia de não ter Oscar durante a festa para me consolar na minha desditosa profissão (já devo ter dito em algum lugar que é sempre durante o Carnaval que eu passo a odiar o jornalismo). Não consegui pensar em nenhum outro nome que não seja a de um filme dos anos 80, Trânsito Muito Louco, para registrar aqui a minha total incompreensão com a insanidade dos condutores baianos. Que os motoristas desta cidade são uns monstros em qualquer dia da semana ou época do ano, é fato. Ooooh povo para desprezar as regras elementares de direção defensiva meu Deus! Há exceções claro, mas geralmente, as exceções também são ambientalmente corretas e não tiram o carro da garagem para comprar pão na esquina. O que justifica, senão esquizofrenia em grau máximo, dezenas (foram pelo menos 30 até eu perder a conta) invadirem um sinal vermelho, numa sexta-feira, numa rua completamente deserta de ecos da folia, mas completamente povoada por trabalhadores que – oh consolo, não sou a única – tentavam atravessar uma certa avenida para seus locais de trabalho ou pontos de ônibus? Alguém mudou o Carnaval para a região da Avenida Tancredo Neves e esqueceu de me avisar? Será que para pegar o avião, o ferry-boat ou a estrada e curtir o feriadão, é preciso mesmo atropelar alguém antes? Não era hora do rush, passava das 19h30, quem tinha de sair do trabalho já tinha saído e buscava a condução para levá-lo pra casa, era uma sexta-feira (aaah é, sexta-feira, o dia internacional da esbórnia), uma rua interna da movimentada avenida, que tem sinaleira, faixa de pedestres e, nos dias normais, os vigilantes de uma faculdade que vez por outra bancam o guardinha. As pessoas (os pedestres, peões em Portugal – boa palavra!) iam e vinham. A sinaleira diante da Unifacs mostrou a luzinha verde para passarmos, vermelha berrante para os condutores, mas coitados, são todos daltônicos, (também já escrevi sobre isso no blog e lá vem a sensação de deja-vú) invadiram sem pena, quase levando uma senhora que foi puxada, pela bolsa, por um rapazinho, antes que o seu Carnaval terminasse em tragédia (sem trocadilho). Tive o impulso assassino, confesso, de abaixar-me e pegar uma pedra para tacar no primeiro para-brisa que ousasse invadir aquele sinal após a nossa (minha e das pessoas ao meu lado, incluindo a senhora e o rapazinho) terceira tentativa de atravessar a rua. Contive o instinto selvagem, não ia pegar bem para a minha reputação, mas não contive o palavrão (ninguém é de ferro!).
O Carnaval – Foi uma sucessão de desfiles de trio…Desculpem a falta de empolgação, mas segundo pesquisa da Saltur (organizadora da folia baiana) trata-se mesmo de uma festa de e para gringos, pois 71% dos soteropolitanos (olha eu finalmente representada numa estatística) não saem para os circuitos e nem pulam atrás do trio elétrico. Lindo isso!
P.S.: – Tatau também se recusou a cantar o “Lobo Mau”. Ainda há gente sensata neste mundo!
Outro P.S.: – Cheguei em casa às 4h40 da madruga.
(13/02/2010)
Primeiro dia – Deja-vú
São 6h50 da manhã de sexta-feira e eu cheguei em casa a menos de uma hora. Tomei um banho daqueles de purificar alma pecadora e um café com bolo (santa Irá, que me fez este agrado). O plantão durou exatas dez horas de deja-vú. A primeira noite do Carnaval de Salvador, interminável, teve as mesmas atrações de todo ano, cantando as mesmas músicas, com raras exceções para apresentação das “candidatas” a melhor canção da folia 2010, sem que com isso eu queira dizer que essas músicas novas sejam diferentes das velhas, não são. Um colega, ao meu lado na bancada onde eu trabalhava, suspirou e me saiu com esta: “Se ficássemos em casa e reaproveitássemos o material do ano passado, ninguém notaria a diferença”. É o oposto do que pensa a celebridade do camarote mais badalado da festa: “Ouvi dizer que é mágico!” A magia para ela termina ainda nesta sexta, quando embarca para descansar em Fernando de Noronha (oh inveja!)
Não se fazem mais repórteres como antigamente – A apatia destas crianças me entristece. Sempre detestei Carnaval, mas sempre também fiz questão de cobrir a festa direito. Hoje em dia, o tédio da juventude é tão grande (pareço minha avó falando, mas paciência), que eles mal chegam ao local da cobertura, já voltaram. Quando questionados sobre o que tinha por lá, dão de ombros. Talvez não estejam errados e sejam só um tiquinho mais realistas que a minha geração de pseudo-escritores que tentavam ver poesia até na pauta mais infame.
Para quem quer saber o que rolou – O rei Momo deste ano é Pepeu Gomes e as chaves da cidade foram entregues dentro da Fubica, o fordizinho bigode 1929 que deu origem ao trio elétrico – embora seja impossível acreditar que a fubiquinha tão bonitinha tenha parido o T-Rex de Bell Marques. Pepeu cantarolou um discurso com a chave na mão, ficou até bonito de coroa na cabeça, mas não desfilou – pelo menos até o fechamento da edição – porque junto com as chaves simbólicas da soterópolis, deram para ele um trio elétrico caindo aos pedaços, que não saiu do lugar. Pena que a Fubica já não tem mais motor. O consolo é que Pepeu, acredito, vai se recusar a cantar o “Lobo Mau”, um pagode de letra obscena que lançaram este ano por aqui. “Obscena e pedófila”, diz uma amiga minha. Pois é, no Carnaval de Salvador, alguma alma “bondosa” ressuscitou a versão de Perrault para o conto da Chapeuzinho Vermelho.
(12/02/2010)
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CARNAVAL DE 2009
O abominável mundo dos camarotes
Há mais de um mês é impossível transitar pelo centro de Salvador, no trecho que se estende entre a praça do poeta (Castro Alves) até a avenida Ademar de Barros, em Ondina. São os tais dos 25 quilômetros da “Cidade Efêmera do Carnaval”. Por ser efêmera a gente até se resigna a suportar dias tormentosos entre meados de janeiro e o começo de março, quando as famigeradas estruturas carnavalescas empurram pedestres para o meio da pista. No entanto, nada me impede de bradar para a minha meia dúzia de fieis leitores, o quanto me irrita viver em Salvador nessa época do ano. Com todo respeito à tradição milenar do Carnaval, quem reclama aqui neste espaço agora é a cidadã, moradora de Salvador e não a jornalista que tem de cobrir a festa por força da profissão. Gente, eu odeio Carnaval com cada célula do meu ser. Acho a festa horrível, as músicas de gosto duvidoso, detesto multidões suadas se espremendo e trocando bactérias. Mas, durante a festa é simples conviver com ela. Moro quilômetros longe dos circuitos da folia. Trabalho em uma zona da cidade que mal vê ecos carnavalescos em foliões tardios que dormem nos ônibus. Nem uma notinha de axé music, graças ao deus protetor da boa música. Mas, centro da cidade é centro da cidade e por mais que a gente tente, não há como fugir de transitar por essas áreas nos dias que antecedem essa versão fake das antigas lupercálias e dionisíacas. Pois bem, durante a montagem da cidade efêmera do carnaval, atos prosaicos do cotidiano como ir ao banco, ir ao médico, fazer o cooper matinal que ajuda a manter o AVC e o infarto distantes, tornam-se impossíveis. Engarrafamentos monstruosos, barulho ensurdecedor com o baticum da montagem das tais estruturas, mudança nos roteiros dos ônibus porque tal rua foi fechada para o bloco passar…O pior é que todo ano a imprensa escrita, virtual, televisiva e radiofônica faz matérias mostrando os transtornos do Carnaval para a vida do cidadão comum, mas o efeito é semelhante ao do desabafo neste blog. Apenas serve como catarse coletiva de um mal que, por falta de planejamento adequado, é dos tais sem solução.
(18/02/09)
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Primeiro dia – Já é Carnaval cidade, socorro!
Se engane não leitor. Embora pretenda dividir com vocês o meu suplício em trabalhar seis madrugadas seguidas, Carnaval à dentro – o problema não são as madrugadas, que me descobri notívaga, mas a folia de Momo -, os detalhes me escapam, porque como todo ser humano, tendo à autoindulgência. Na medida do possível tentarei narrar os fatos mais marcantes do meu carnaval pessoal, em detalhes. Não adianta narrar o que todo mundo vai ver na TV e acessar na internet. Então, como a moda é buscar o diferencial na árdua luta pela sobrevivência, meu diferencial é contar sobre a rotina miudinha que vivo.
(19/02/09)
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Madrugada do Momo Gerônimo
O Carnaval de Salvador já começou. O rei Momo é o cantor e compositor Gerônimo. Um cara resistente, que tem a capacidade de se reinventar e sobreviver ao boom do axé, fazendo o estilo de música em que acredita. Na massa homogênea do Carnaval, com cantoras chapinhadas e malhadas, Gerônimo, barrigudo, um senhor de meia-idade, mantém o charme da origem do samba-reggae. O que me atrai no samba-reggae, na salsa, nos ritmos de raiz que ele preserva? Justamente isso, o fato de serem de raiz, de manterem a origem das coisas em seu devido lugar de respeito.
O A TARDE On Line está com hotsite para cobrir a folia comandada pelo rei Gerônimo. Eis o motivo pelo qual minhas madrugadas serão longas até a Quarta-feira de Cinzas. Plantões madrugada à dentro são incovenientes no que diz respeito a dieta e ao sono, mas os riscos de infarto são atenuados pelo santo remédio que é rir das piadas de colegas tão mal-alimentados e mal-dormidos quanto você. A solidariedade entre os notívagos me fascina e ajuda a manter o ânimo, mesmo na cobertura do Carnaval.
“Chove lá fora e aqui faz tanto frio”. Está realmente chovendo baldes (para refrescar a falta de juízo dos foliões) e a redação está geladíssima.
P.S.: anotação mental para a segunda-noite: pedir o controle remoto do ar condicionado e deixá-lo ao alcance dos dedinhos que voam pelo teclado.
(20/02/09)
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Tambores da minha liberdade
A terceira madrugada momesca avança e os sinais da minha impaciência para a festa terminar são nítidos. As piadas tornam-se mais ácidas e a ironia é o último recurso de sobrevivência da inteligência agredida por letras como “rala a checa no chão?!” Os desfiles atrasam, a vistoria dos trios acontece na última hora e a ordem de entrada nas passarelas carnavalescas é alterada. Olho para o relógio, isso não vai dar certo, murmuro desconfiada. E não dá mesmo, bloco entrando na avenida com sete horas de atraso?! Significa que minha madrugada vai virar manhã.
A noção de tempo de alguém que troca os dias pela noite muda radicalmente. Você toma o café da manhã na hora do lanche da meia-noite. Vai dormir na hora de acordar. Acorda e cai direto, de boca, garfo e faca no prato do almoço e lá para o meio da tarde, que sono terrível. Meia horinha de cochilo para enfrentar outra madrugada.
Para quem faz questão de saber, a segunda noite do Carnaval teve Timbalada, Olodum e Cortejo Afro. Belo desfile desse último, mas saiu às 23h30, sem público, só com as imagens da TV estatal. Uma pena, os tambores do cortejo anunciavam liberdade, a minha. Outra olhada para o relógio, faltam pouco menos de cinco horas para encerrar minha transmissão.
(21/02/09)
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Quarto dia – and the oscar goes to…
A melhor coisa do quarto dia de Carnaval, acreditem, foi a cerimônia do Oscar. Quem quer ser um milionário? comprovou o favoritismo. Quando o oba-oba em torno do filme terminar, eu assisto e tiro minhas próprias conclusões. Embora Danny Boyle seja um nome para se levar em consideração, mesmo que até hoje eu não tenha me dignado a assistir Transpoiting. Tem o DVD aqui em casa há séculos, mas eu não assisti ainda. Tenho umas birras próprias. Lá um dia eu pego e assisto. Na prateleira de Bobbie também tem Pornô, o livro que dá continuidade a história de Transpointing, mas o rosa berrante da capa me assustou um pouco. Não é o número um da minha lista de coisas para ler. Lá um dia, quem sabe, pego e leio.
Entre um trio e outro, de esquelha, dava uma olhadinha na cerimônia na TV da redação. Pincei algumas cenas de Hugh Jackman revivendo seus dias de Broadway e Beauty and the beast, musical que o tornou famoso na Austrália. “O homem mais sexy do mundo” (a culpa provavelmente é do Wolverine), me parece, conseguiu conduzir a cerimônia de maneira digna.
Embora, o excesso do glamour do musical tenha me dado a impressão de que a premiação do Oscar virou um grande palco para Hugh mostrar que sabe cantar e dançar. Fiquei tentando ler as expressões dos outros atores. Deve ser meio difícil agradar uma plateia majoritariamente de colegas de trabalho. Mas o menino Jackman literalmente suou o smoking. A propósito, gosto dele, mas aconselho que risque Austrália (o filme) do currículo.
De qualquer forma, Hollywood fez mais uma sessão de mea culpa, dando um oscar honorário para Jerry Lewis. Bons tempos o da minha infância, quando a barriga doía de tanto rir das tiradas do ator.
Sean Penn, esse sim, o homem mais sexy do mundo, faturou a estatueta de melhor ator por Milk e de quebra pediu a legalização do casamento gay. Há quem se irrite com o engajamento de Penn em prol disso e daquilo, mas atenção puristas, arte pela arte é balela e Oscar Wilde (que Deus o tenha em bom lugar) está morto.
Aaaah, o Carnaval? Teve trio elétrico, os mesmos artistas de sempre, as mesmas brigas de sempre, que pioram ano após ano com o confinamento da pipoca…continuo na contagem, faltam dois dias! Amém.
(22/02/09)
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A vida na cidade off Carnaval
Costumo admirar a cidade em dias de feriado. Mais até, como já declarei de outras vezes, sinto-me dona das ruas. Desfruto o poder de andar pelas calçadas sem esbarrar em ninguém, deserto de concreto, entregue à contemplação. Mas a solidão da cidade off carnaval não é contemplativa, é mais triste, talvez porque seu oposto, a cidade da folia, alguns quilômetros e viadutos à frente, seja alegre demais. A felicidade fake do Carnaval, com seu colorido berrante e os trios ensurdecedores, como se gritassem EI, É PROIBIDO FICAR TRISTE PELOS PRÓXIMOS SEIS DIAS, embotam e contaminam as ruas desertas da cidade off carnaval. Desço uma ladeira, em direção ao plantão, ninguém nas ruas. O vigilante de uma obra me dá boa-noite e deseja bom trabalho, sinto um suspiro em sua voz. Resignado em ganhar o pão, não participa do espetáculo lá na outra cidade, as contas se pagam nessa. Ao atravessar o estacionamento de um grande supermercado, que me serve de atalho para alcançar o ponto de ônibus, mais rostos anônimos e dolorosamente tristes empurram carrinhos de compras. São os excluídos da folia. Ou paga-se o abadá, ou compra-se o almoço da semana, lembro de Cecília Meirelles e do eterno dilema que nos cerca, ou isto ou aquilo, eterno estado de escolha da condição humana. Poderiam sair fantasiados de pipoca, os tristes rostos resignados que vejo, mas o risco da cotovelada na costela, do soco no olho, quiçá de uma facada, não vale a pena. Na rua onde trabalho, luzes só as pálidas penduradas nos postes. São um pouco mais brilhantes no prédio do jornal. A avenida de grande movimento em dias comuns, entrega-se à modorra de um feriado em que somos todos obrigados a gostar de foliar. Um carro para ao meu lado, o motorista, sotaque de fora da Bahia, pede orientações sobre como chegar na Barra. Indico as vias tortuosas que ele vai ter de percorrer, verdadeiro labirinto de vielas pasmacentas. O coitado queria viver cada segundo de festa, mas está hospedado na cidade off carnaval. Com suas ruas desertas, convertidas quase todas em mesma paisagem, essa cidade de tristeza não abre suas fronteiras com facilidade para aqueles que desejam escapar para a outra, aquela que brilha com as cores de Momo. Respiro o ar deserto da cidade off carnaval e entro na redação, para viver o simulacro de festa que o plantão me reserva. Tédio profundo, mas agora só falta um dia.
(23/02/09)
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Quinto dia, tanto a declarar!
O impacto da cobertura do quinto dia de folia foi reduzido a cena de uma mulher, completamente nua, dançando um pagode de letra grotesca sobre um trio elétrico. Aquilo me falou tão fundo na condição de fêmea, que apelei para bell hooks e escrevi esse desabafo aqui, no Conversa de Menina.
(24/02/09)
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Algumas considerações finais sobre o Carnaval
1 – Que bom que acabou!
2 – Descobri que é possível acordar de ressaca sem ter bebido uma gota de álcool ou consumido qualquer outro tipo de aditivo, exceto chocolates. Ressaca de sono deve ser tão ruim quanto ressaca de cachaça. Atenção às sensações: cabeça pesada, tontura, moleza no corpo, gosto ruim na boca (até água fica esquisita), entorpecimento…
3 – A cidade ontem deserta e deprimida, hoje acordou barulhenta pra caramba. Tem uma fábrica embaixo da minha janela e dois canteiros de obras nas cercanias do prédio onde eu morro. Parem as máquinas, pelo amor de deus!
4 – Acabo de me lembrar que em meio aos plantões momescos, esqueci completamente de fazer o dever de casa!! Preciso definir o meu objeto de estudo e escrever uma apresentação…se é que vocês me entendem. Se não entendem, sem problemas, hoje o dia tá confuso como em toda Quarta-feira de Cinzas que se preza.
5 – Daqui a pouco tem o bom e velho plantão de corujinha da meia-noite. Nada como o conforto da rotina para ajudar a aclarar as idéias.
The end.






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o que eu estava procurando, obrigado