Voltava para casa e no ônibus escutava o papo de duas moças sentadas no banco à minha frente. Aprendi com o escritor Mayrant Gallo, que uma vez – numa entrevista – me disse que a melhor maneira de ter bom material para escrever é observar os outros na rua. Eu, que desde criança observo tudo e todos com um misto de espanto e curiosidade, tornei-me praticamente voyer compulsiva. Em qualquer lugar onde vou, mesmo quando pareço distraída (o que não é nada difícil) mantenho um radarzinho ligado. As duas moças conversavam sobre preconceitos em geral e uma delas disse: “Homofobia é o pior tipo de discriminação que existe”. A interlocutora não concordou e disse que racismo era pior. Passaram então a medir as duas formas de desrespeito ao semelhante, cada uma tentando convencer a outra de qual forma de preconceito era do pior tipo. Ao ouvir o debate entre as duas, matutei com meus botões que é uma pena que os preconceitos de qualquer tipo estejam tão arraigados no nosso inconsciente coletivo – e individual – que duas pessoas passam a ranquear as injúrias, para medir quais doem mais, da forma mais natural do mundo, como se de fato houvesse um escore para isso! Acredito que preconceito é preconceito e pronto. Homofobia não é mais grave que racismo, que não é pior que machismo, que por sua vez não é pior que intolerância religiosa, que não vem a ser também menos grave que discriminação contra gordos, deficientes, feios (o conceito de feio e bonito aí tão questionável quanto)… Estabelecer um ranking para a discriminação é transformar uma luta justa por reconhecimento e respeito, em gueto. E tudo o que homofóbicos, racistas e machistas querem é que os gays, negros e mulheres vivam no gueto, berrando suas injúrias para “as minorias”, sem de fato fazer diferença no bendito (?) inconsciente coletivo da maioria. Penso por exemplo na questão religiosa e lembro do Bono Voxx cantando: “in the name of love”. Meio mundo de gente (roubei essa expressão de um amigo que é mineiro e sempre fala “meio mundo de gente”) já pensou a mesma coisa e nem por isso deixa de ser verdade que se mata mais em nome do amor e da fé do que do ódio propriamente dito. Não é à toa que nos idos de mil novecentes e antigamente (mais precisamente, em 1949), George Orwell surpreendeu ao batizar uma câmara de torturas de um regime totalitário com o singelo nome de Ministério do Amor, no livro 1984. A escolha do autor não foi um eufemismo, mas ironia. Nomes são importantes. Nomes são palavras (sempre elas) e as palavras são traiçoeiras, se prestam a todo tipo de uso e interpretação. Se não me falha a memória, foi Nelson Rodrigues quem disse em algum lugar que as palavras são umas p* (vocês entenderam, então vamos zelar pelo bom nome do blog). Somos formados por palavras desde a mais tenra infância e são elas também, depois que crescemos, que vão nos ajudar a vencer todo o condicionamento que nos torna em maior ou menor grau preconceituosos. Falava sobre isso com uma colega de trabalho essa semana. Nós duas, mães (ela de um menino na pré-escola e eu de um adolescente), discutíamos sobre o quanto é árduo o processo de formar um filho livre dos (pre)conceitos, quando nós mesmas fomos educadas dentro da norma vigente. E a norma, quase sempre, é excludente. É um trabalho de autopatrulha que não tem relação com politicamente correto, mas com o amadurecimento e desenvolvimento da capacidade de evoluir como pessoa, aprendendo no processo a respeitar outras pessoas que independente de serem iguais ou diferentes a nós, tem o direito de ser respeitadas. Não significa que de vez em quando não ocorram deslizes. Parece paranoia e em certa medida, alguns patrulhamentos ditos “politicamente corretos” são mesmo paranóicos, mas não vou entrar nesse mérito. Creio sim, com convicção, que um certo cuidado é necessário sempre, pois livre de algum tipo de (pre)conceito, de (pre)julgamento, ninguém é totalmente. Vencer anos e anos de concidionamento normativo (“menina isso, menino aquilo”; “homem só com mulher”; um Jesus de cachos dourados e olhos azuis na imagem da igreja…etc.) não é fácil, dá trabalho. E como tudo que dá muito trabalho não ganha adesão imediata, infelizmente, nem todo mundo quer tentar se livrar do máximo de preconceito possível. Se mais gente quisesse, não precisaríamos estabelecer rankings para a discriminação, porque ela doi em todos os corpos e todas as almas em igual intensidade.
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Em tempos do “politicamente correto”, ninguém quer bancar o preconceituoso. Vivemos a era da discriminação cordial: mascara-se, suaviza-se, transmuta-se, abafa-se, mas ela está lá. E quando pode – ou quer – mostra bem suas caras. A verdade é que, como você falou, ninguém está totalmente despido de preconceitos. Reconhecê-los seria um passo importante para superá-los, acredito. A batalha é longa, árdua, dói a princípio, mas pode curar no final. Topemos o desafio.
Exatamente, Fernando. “Topemos o desafio!” Bjos