A TPM na TV. Ou, pelo direito de surtar em paz!

Esta manhã, enquanto me arrumava para trabalhar, minha mãe (que é da área de enfermagem e adora temas sobre saúde, claro!) assistia ao Bem Estar, o programa da rede Globo sobre qualidade de vida e dicas para manter-se saudável. Até então, nada demais. Segundo a avaliação de mamãe, o programa não traz nada que ela, nos quase 40 anos em que exerceu a profissão, já não tenha visto. Até as dicas “caseiras” são bem comuns. Principalmente para ela, que cresceu em fazenda, em família com nove irmãos – sendo a mais velha – e criou duas filhas, dando ainda aquele aconselhamento básico às irmãs mais novas sobre os cuidados com os sobrinhos. Assistiu ao nascimento de boa parte deles.

O tema de hoje era a TPM. Humm, terreno minado. Além das críticas de mamãe sobre o formato “nada de novo” do programa, – em qualquer bom site na internet ou em revistas femininas bem feitas dá para encontrar as mesmas informações e muito mais completas -, o que me irrita é a linguagem tatibitati, como se as donas de casa fossem todas semi-alfabetizadas, simplórias e crédulas, beirando a ingenuidade infantil.

Outro ponto muito negativo, na minha avaliação, é que a medicina oferecida como solução para todos os problemas do mundo, óbvio, é a alopata. Terapias naturais, quando abordadas, são só citadas como “superstições”! Chás? Que nada, bom mesmo é se entupir de remédios. Para mim, que quase morri há nove anos devido a uma alergia muito grave a medicamentos, que deixou sequelas irreversíveis, inclusive, dá até arrepios.

Mas no tema de hoje, a TPM, o programa se superou. Me deu irritação, sério! Me preocupo muito quando um programa, sob a bandeira de “simplificar” conceitos da alta medicina para a dona de casa comum, ao tratar de um tema delicado como esse, não consiga fugir do mesmo lugar comum de sempre, e pior, não escape do machismo, da heteronormatividade e de referir-se a nós, mulheres, como subcriaturas, mesmo que isso esteja nas entrelinhas. Pois é, temos TPM, surtamos uma vez por mês, logo, somos inferiores aos homens! Heim?

A foto é do site Corpo a Corpo, sobre terapias naturais

Como assim um médico, que conhece o corpo humano por dentro e por fora, deixa de discutir a TPM do ponto de vista científico, dando dicas para as mulheres sobre como aliviar o sofrimento mensal, e ao invés disso, vem com o mesmo papinho de sempre de “coitados dos maridos, eles precisam ser heróis, porque as mulheres viram outra pessoa, elas enlouquecem mesmo!?”. Senti #vergonhaalheia ao ouvir um profissional de saúde com ideias tão absurdamente distorcidas sobre um fenômeno que, não fosse a civilização e suas regras de conduta e aprisionamento do indíviduo, faria parte do ciclo da natureza.

A biologia não desfavorece as mulheres por terem TPM, que fique muito claro. Não somos inferiores aos homens porque nossos hormônios entram em ebulição uma vez por mês. O deles, a testosterona, o hormônio da macheza e da agressão, é tido como benéfico, como o motor que impulsiona a humanidade para o progresso. Sei, as guerras são só um efeito colateral. Os nossos, ah, revelam a vulnerabilidade, o quanto são descontroladas!

Há teorias médico-científicas que dizem que, biologicamente falando, não deveríamos ter TPM, porque a ideia (na natureza) era que a gente engravidasse, parisse, amamentasse e em sequência, engravidasse de novo, até morrer ou até a menopausa. O médico e cientista Elsimar Coutinho é um dos defensores da teoria, que é bem polêmica e insustentável no modelo de civilização atual. Mas não deixa de ser outro modo de ver as coisas.

Não concordo com ele, até porque, essa ideia de mulher ficar em casa só procriando, também é machismo dos brabos! Só digo que, existem outras visões, outras pesquisas e outras teorias que explicam esse fenômeno complexo. Além disso, rotular todas as mulheres como surtadas é reducionista e leviano, a TPM manifesta-se de formas diferentes em mulheres diferentes e tem gradações e fatores que atenuam ou pioram. Confinar mulher em sanatário por causa da TPM é coisa da Idade Média! Hoje em dia, na falta do sanatório, programas de TV tacam pedra no corpo e na psiquê feminina com a intenção de quê? Favorecer o laboratório x, que é patrocinador do dito programa, e por acaso fabrica a pílula z ou o hormônio y, usado na terapia de reposição hormonal tal, daquele tal médico não sei quenzinho da silva? Dá para desconfiar.

Existem sim, casos graves de TPM que requerem medidas drásticas e até, intervenção medicamentosa, sob o risco da mulher ferir a si mesma e aos outros. Mas dizer que todas as mulheres surtam, só porque a irritabilidade faz parte do processo, é o mesmo que dizer que todas as mulheres terão depressão pós-parto e afogarão seus bebês na banheira! Alô, produtores do Bem Estar, si liguem nos conceitos que estão disseminando, querendo ou não, vocês são formadores de opinião. Tem homem assistindo!

Ioga contra a TPM. Imagem e reportagem bacana da Folha

Um dos apresentadores do programa inclusive lançou a pérola: “Vamos saber o que as mulheres pensam sobre a TPM (numa chamada para ouvir gente nas ruas) – e fez o adendo grotesco – se é que dá para saber o que uma mulher pensa”. Pois eu respondo a esse moço, de quem não gravei o nome, que é tão difícil entender como pensam as mulheres quanto é difícil saber como pensam os homens. O ser humano, independente do sexo, do gênero, da orientação, é complexo meu filho, por isso tanta gente está no divã, sabia não?

Sempre que vejo reportagem sobre TPM dando ênfase a medicamentos para “acalmar” a mulher não deixo de pensar no quanto a gente mete medo, no quanto somos forças poderosas da natureza e precisamos estar sob controle constante. No quanto a nossa sociedade aguenta todos os descontroles masculinos e toda a agressividade masculina no dia a dia (olha a testosterona bombando aí gente), mas é incapaz de lidar com uma mulher nervosa, sensível e irritada porque o corpo dela está fervilhando de hormônios e isso doi para caramba. Doi sim, oh meu Deus, é um tormento menstruar!

Não é a TPM em si, é todo o conjunto que atende por essa sigla. As dores no abdomen e musculares, o cansaço, o inchaço nos seios, abdomen e pernas, a enxaqueca, a tontura, o enjoo… O que nos deixa nervosas, agressivas, chateadas é algo inerente ao ser humano: qualquer pessoa que sente dor ou desconforto fica insuportável, porque reage ora essa! Um bebê com fome ou a fralda suja e esquecido no berço, vai berrar até sufocar. Um homem com dor muscular, tenso ou estressado por um dia ruim no trabalho, ou porque o time perdeu, vai ficar irritadiço, mal-humorado e nada sociável com a mulher. É, nem todos? Gritou um leitor! Mas boa parte fica e pronto. A-ha, gostaram? Dá nisso generalizar. Um leão com o espinho enfiado na pata se torna mais agressivo (lembram dessas cenas dos desenhos animados? Até que surge um ratinho bonzinho e tira o espinho).

Foto do site eHelpCarolina; E texto de um homem, sobre TPM masculina. Lindo!

Não estou dizendo, por favor, que a TPM não precisa ser tratada. Claro que precisa! E como já afirmei acima e em outros textos, a depender do quadro, pode até requerer mesmo medicamentos. Mas, se a ideia de um programa é discutir e desmistificar, não seria mais legal mostrar outras alternativas? Que tal falar de técnicas de relaxamento, bolsa de água quente para atenuar a cólica lancinante, ensinar uma dieta que não colabore com a retenção de líquido (menos sal), mostrar exercícios de respiração…Tem tantas possibilidades e cada uma de nós vai encontrar a sua forma de tratamento. Lógico que, ir à ginecologista é essencial. Primeiro, antes de saber como tratar, é preciso saber direitinho o que é e qual é a intensidade. A gineco conhece a fisiologia do corpo feminino, estudou isso à fundo, então ela poder aconselhar. Esperamos que possa! Não vi ginecos falando na reportagem do Bem Estar, vi um clínico geral que é consultor do programa e fala um pouco de tudo, mas sem detalhar realmente nada. Mau sinal.

Outra coisa, ao invés de tratar os maridos como mártires, que tal mostrar a eles que casamento, ou namoro, requer tolerância e solidariedade e que se a mulher pode aguentar o mau-humor de cão dele quando o time do coração dá vexame, não custa nada também ele ser mais compreensivo com a TPM, não é? Não tratar a mulher como doente, bebê ou psicótica já ajuda um bocado, #ficadica.

No mais, para todas vocês, meninas, que surtam uma vez por mês em micro, pequena, média, larga, ou escala hecatombe, meus parabéns! Como eu já disse uma vez, em outro texto, é preciso ser uma criatura deveras especial, quase mitológica, para “enlouquecer” a cada nova lua e depois recuperar a sanidade, subir no salto linda e maravilhosa e enfrentar o mundo, que infelizmente, ainda nos é bastante hostil…

Sobre Andreia Santana

Nasci em Salvador-BA, tenho 37 anos, sou jornalista e master em jornalismo on line, traça de biblioteca, cinéfila, pesquisadora de literatura e redes sociais, aspirante a encantadora de palavras, vaidosa, comilona e mãe de um adolescente fascinante.
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