Resenha: Os delírios de consumo de Becky Bloom

Após a reportagem sobre a literatura chick lit, comecei a receber vários livros deste gênero para ler e resenhar. Na medida do possível, tento não ser preconceituosa e confesso que essa atitude, e aqui falo na seara da literatura, me rende boas surpresas. Abaixo, a resenha de uma dessas surpresinhas recentes. Divirtam-se!

Muito mais que uma leitura gostosa de sessão da tarde

Os Delírios de Consumo de Becky Bloom é para ler e “consumir” (sem trocadilho, sério!) como uma gostosa comédia romântica, daquelas que fazem rir e pronto, passado o efeito, fica a sensação de que você se divertiu bastante e não precisa ficar remoendo ou pensando muito no assunto. Acredito que esse tipo de leitura é bastante saudável, mas só recomendo para quem não leva a vida muito a sério (na medida do possível, porque às vezes é impraticável e a seriedade se impõe) ou para quem tem tempo de sobra para gastar com diversão, independente de aprender lições edificantes com os livros.

Mas, que bom que sempre tem um mas, não é só isso. A ideia deste livro não é dar lição de moral, nem fazer você se debruçar sobre os grandes problemas da humanidade, não resgata heróis do passado e muito menos reflete os dramas sociais da parcela da humanidade que vive muito abaixo da linha da pobreza. Mas (olha o mas aí) há um “engajamento” no livro, um compromisso com a contemporaneidade, a sociedade de consumo, o descartável, o ágil e o fashion. Há uma mensagem, embora ela seja passada de forma leve, lúdica e sem nenhuma pretensão de ser levada a sério como um manual cartesiano.

A trama desenvolvida com grande humor pela escritora Sophie Kinsella conta a história de Rebecca Bloom, uma jornalista de economia que aparentemente não entende absolutamente nada do tema sobre o qual escreve, vive pagando mico em importantes entrevistas coletivas e está endividada até a alma, dando mostras de que, apesar de escrever sobre finanças, tem as próprias contas em estado de lástima.

Por ser jornalista, era de se esperar que eu ficasse chateada com a Sophie Kinsella (que é minha colega de profissão, inclusive), porque a visão da autora sobre o ambiente do jornalismo especializado é bem cruel, sem concessões, uma crítica ácida e às vezes até meio azeda. Eu adorei, além de concordar em gênero, número e grau. Apesar de algumas estereotipagens para dar o molho ao romance (apesar de não gostar de estereótipos, parece que não há como fugir de alguns), em linhas gerais, Sophie, que era jornalista de economia antes de virar escritora, dá um show de lucidez ao radiografar a relação muitas vezes ambígua entre as empresas de relações públicas (leia-se assessorias de comunicação) dos grandes bancos e grupos financeiros, com os jornalistas que deveriam, em vez de copiar releases descaradamente, ter uma visão crítica dos números e balancetes sempre favoráveis (para os bancos) e nada preocupados com os coitados dos aposentados, por exemplo, que guardam suas economias nas respeitáveis instituições.

A troca de gentilezas, presentinhos, jabás e que tais também estão nas páginas desta despretensiosa comédia romântica que no fim das contas, merece ser bem mais levada a sério do que é de fato. Sabemos, e não posso ser ingênua, que assim como em qualquer profissão, há os bons e os maus jornalistas. E que, do repórter ao dono da empresa de comunicação, os graus de honestidade ou corrupção têm mais variáveis que uma equação do segundo grau.

A vida caótica de Becky Bloom, seja às voltas para driblar o gerente do banco e não pagar as próprias contas (mais por imaturidade do que por desonestidade) ou para conquistar o homem dos sonhos, é o pano de fundo onde Sophie deita e rola divertindo-se tanto com as agruras e as ingenuidades (oooh! como são bobinhas) das mulheres modernas, quanto para destilar sua crítica contra uma imprensa comprometida com as corporações e não com o cidadão comum, que é, em tese, o real motivo da existência da imprensa “livre”.

Becky Bloom é uma heroína às avessas. Cheia de falhas, fútil, mentirosa, insegura, consumista ao excesso (e o consumo excessivo é prova da insegurança), desmioladinha, gasta mais do que ganha, dá foras enormes, não consegue entender muito bem os desejos e anseios dos outros, a menos que digam respeito a ela mesma. Tem 25 anos (ou seja: acaba de se formar, entrou no mercado há pouco tempo, se sente mulher mas ainda age meio como adolescente tardia) e precisa levar umas porradas ao longo do livro para virar gente.

A virada da personagem é muito bacana de acompanhar. O amadurecimento de Becky é ao mesmo tempo o amadurecimento do livro, que começa desmioladinho como a protagonista, mas chega ao final das suas 300 e tantas páginas revelando-se muito mais que apenas uma leitura gostosa de sessão da tarde.

Ficha técnica:

Os delírios de consumo de Becky Bloom

Autora: Sophie Kinsella

Tradução: Eliane Fraga

Editora: Edições Best Bolso

364 páginas

Preço: R$ 19,90

Dica:

Em 2009, o diretor P.J. Hogan, famoso por comédias românticas e adolescentes, lançou a versão cinematográfica de Os delírios de consumo de Becky Bloom. O filme é protagonizado por Isla Fisher e John Lithgow. Inclusive, as fotos que ilustram o post são deste filme. Como ainda não assisti, não tenho muito a acrescentar. Mas fica a dica para quem quiser se aventurar. Caso alguém já tenha assistido, divide aí as impressões comigo e a “meia dúzia” de fiéis leitores.

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Sobre Andreia Santana

Nasci em Salvador-BA, tenho 39 anos, sou jornalista e master em jornalismo on line, traça de biblioteca, cinéfila, pesquisadora de literatura e redes sociais, aspirante a encantadora de palavras, vaidosa, comilona, solteira e mãe de um adolescente fascinante.
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11 respostas a Resenha: Os delírios de consumo de Becky Bloom

  1. Ana diz:

    Amei o filme, mas aida não li o livro! Me identifiquei muito com a personagem, toda louquinha do jeito que ela é. Recomendado para compradores compulsivos!

    Kisses!

  2. kaline diz:

    gostei muito e me devertii muito o consumismo

  3. Alessandra diz:

    Terminei de ler o livro ontem, simplesmente me diverti muito com a leitura. É um livro leve, de fácil leitura, que envolve o leitor nas histórias malucas de uma consumista, que se torna engraçada por suas atitudes ou pensamentos fantasiosos.
    Porém achei o livro bem diferente do filme, o filme só copiou fielmente as maluquices da Becky, mas deixou de lado todo o resto da história. Ela não se apaixona pelo chefe, etc, etc, etc…
    Uma ótima leitura para quem está afim de uma distração e diversão.

  4. talia diz:

    gostei mto aconselio a todas as pesoas compulsiva

  5. nayah diz:

    gostei muito,
    eu assisti o filme no colégio para fazer um trabalho, e ler essa resenha me ajudou a entender melhor o filme.
    o filme é muito legal, e pra quem não gosta muito de ler, ou por alguma questão pessoal, o filme é uma ótima dica.

  6. thais allana diz:

    gostei…..foi o filme mas comsumista do mundo.
    eu vou assumi nao posso ver uma roupa um sapato eu ja pesso pra compra.Mas eu estou largando isso
    sou fao de vc adoro
    bjossssssssssssssssssssssssssssssssssssssss;;;;

  7. Olá Lailla, Victoria e Zanah,
    Também achei o filme super divertido e recomendo que vocês leiam o livro, que é bem legal também. Bjs e obrigada pela visitinha aqui no blog.

  8. lailla santos silva diz:

    uma otima comedia romantica que faz com que os telespectadores pensem em suas açoes. Com Becky Bloom nao pensou e acabou individada,mas, como em todo romance tudo se acertou e ela ficou com seu amado.

  9. victoria e zanah diz:

    nós adoramos esse filme, foi fantastico, principalmente na hora em que Rebeka e seu chefe se beijaram
    Rebeka passou por muitos obstaculos, mas conseguiu o que queria, que era pagar sua dividas e conseguir o amor de seu chefe.

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