“Mulher só é amiga da outra quando não tem homem no meio”. Essa frase me causa uma tremenda irritação (com o perdão da Fernanda Young, que anda irritada há bem mais tempo que eu). Se é para generalizar, podemos afirmar, sem susto: “homem só é amigo do outro quando não tem mulher no meio”. Sim, com certeza você tem um amigo que já cantou a namorada de outro amigo. O problema é generalizar. Mulheres que traem amigas, que invejam os casamentos ou namoros, que invejam o vestido, que querem ter o corpão da outra, que não conseguem achar outra mulher bonita ou vê-la se dando bem no trabalho, são exceções e não a regra. Já fui traída por amigas e você também deve ter sido, mas se colocar na balança, tive, e tenho, muito mais amigas fiéis, daquelas que seguram todas as barras, lado a lado. Acredito que se você fizer um exame de consciência -aproveita o fim do ano chegando – vai perceber também que, em momentos cruciais da sua vida tinha sempre um ombro de mulher à disposição. E não estou falando das nossas mães. Se uma amiga brigou com você por causa de homem, minha cara, você estava chamando a pessoa errada de amiga.
Freud, certa vez, disse durante uma entrevista para o escritor americano Norman Mailer, que se tivesse a sorte de encontrar alguém que o compreendesse, morreria realizado. Imagino que não devia ser nada fácil compreender Freud, não o pai da psicanálise, mas o homem por trás do gênio. No entanto, a frase de Freud não tem relação com gênero. Amizade não é questão de sexo, é de complementariedade. Dizer que mulher só é amiga de mulher quando não tem homem no meio equivale a dizer que homens e mulheres não podem ter amizade desinteressada, “porque homem e mulher juntos só tem um destino, a cama”. É mentira. Homens e mulheres podem ser amigos tanto quanto duas mulheres ou dois homens. Ah, mas tem a competição. Claro que tem, se em casa a gente compete com os irmãos pela atenção dos pais, se compete com a mãe pela atenção do pai, como é que não vai ter competição no mundo aqui fora, quando sobra mulher e falta homem? Pelo menos, biologicamente, nascem mais meninas que meninos desde que o mundo é mundo. É natural que, quando a demanda é grande e o produto escasso, algumas tenham mais sorte que outras. Mas a biologia, a atração entre os sexos, a sobrevivência da espécie, encontrar a alma gêmea, casar e viver juntinhos até morrer, nada disso tem relação com amizade.

Nem toda amiga está de olho no seu par ou no seu salário. As que estão, repito, não são amigas. Amizade depende de idéias que se somam, de simpatia, de identificação. O problema da sociedade atual, da velocidade e das relações descartáveis, é que com dois meses de bate-papo todo mundo vira amigo. As pessoas se tornaram menos seletivas. Antigamente, as amizades demoravam a consolidar e duravam a vida toda. Minha mãe tem amigas que ela conhece há mais de 40 anos. A sua deve ter também. Se parar para escutar as histórias da sua avó, vai ver que ela tem belas lembranças sobre amizades inesquecíveis. Aproveite que um ano novo está chegando e reveja seus conceitos. Vai descobrir que o problema não está no gênero dos seus amigos, mas na profundidade da amizade.
PARA LER:
Bons livros que falam da cumplicidade feminina:
As boas mulheres da China, Xinran, editora: Companhia das Letras
A Cidade do Sol, Khaled Hosseini, editora: Nova Fronteira
A Tenda Vermelha, Anita Diamont, editora: Sextante




