Diário de uma aparelhada – I

Querido Diário,

Divido com você o sofrimento que é usar aparelho nos dentes. Para começo de história, quero deixar registrado que a culpa disso tudo é da minha mãe. Depois de fazer a consulta no ortodontista, passar uma tarde inteirinha numa clínica fazendo raio-x e fotos dos meus dentes de todas as posições e ângulos possíveis, a instalação já começou e imagino o que vai ser de mim na escola. Acho que entrarei num convento e só saio de lá quando tirar o aparelho. Será que as freiras tem Sky, internet e me deixariam usar meu i-pod? Nas primeiras duas semanas não pude nem mastigar e vivi à base de sopas, sucos e leite. Oito borrachinhas azuis foram instaladas nos meus dentes. Uma dor horrível! Doia o queixo, doia a cabeça! Nem me animei a ir ao shopping com a Roberta. Depois dessa tortura, uma coisa chamada BPT foi instalada na minha boca. É impossível comer usando essa BPT também. Tem um ferro atravessando o céu da minha boca. Nos próximos dois anos terei de fazer treinamento de faquir. Minha mãe comemora, diz que está pagando dois tratamentos pelo preço de um: ficarei com os dentes no lugar e magra ao mesmo tempo. Será que não basta eu ser miope  e usar óculos? Bem que ela podia pagar lentes de contato ao invés de me fazer usar um monte de ferros nos dentes. Ou quem sabe uma cirurgia laser? E o Rodrigo, como vou beijar ele nos próximos dois anos? Bem que a Laurinha vai gostar. E o Rodrigo, que é bem galinha, deve querer tirar o atraso da beijação com ela. Acho que vou ler o Estatuto da Criança e do Adolescente e checar se a minha mãe não está infringindo alguma lei. Também pensei em denunciá-la à Comissão de Direitos Humanos da ONU.

Com amor e dor nos dentes,

Camila.

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*Um esclarecimento a pedido de pais e mães que frequentam o Mar de Histórias: A série Diário de uma aparelhada é ficção baseada em fatos reais. Camila é uma adolescente inventada por mim, mas inspirada numa pessoa real que está vivendo o processo de usar aparelhos nos dentes. Portanto, as conquistas e torturas que ela descreve, realmente estão acontecendo com alguém.

Sobre Andreia Santana

Nasci em Salvador-BA, tenho 37 anos, sou jornalista e master em jornalismo on line, traça de biblioteca, cinéfila, pesquisadora de literatura e redes sociais, aspirante a encantadora de palavras, vaidosa, comilona e mãe de um adolescente fascinante.
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