Não nos matem, pelo amor de deus!

É rosa, de pelúcia, mas é algema, é um símbolo de prisão, opressão e violência moral

É rosa, de pelúcia, mas é algema, um símbolo de prisão, opressão, subordinação à vontade de quem tem as chaves

O título deste post não é um apelo, mas um protesto. A paráfrase relembra a célebre frase do escritor Lima Barreto. Em um artigo escrito para o jornal Correio da Noite, no Rio de Janeiro, em 1915, o autor de Clara dos Anjos bradava: “Não as matem, pelo amor de Deus!” aos maridos e amantes que praticavam barbaramente o vil costume de “lavar a honra com sangue” quando constatavam uma traição afetiva. A última vez que escrevi sobre violência contra a mulher , lamentei voltar ao tema, mas a agressão sofrida por uma professora baiana, espancada brutalmente pelo marido, precisava de divulgação. Em outro texto, de março deste ano, a íntegra do artigo de Lima Barreto foi publicada aqui no blog, para reforçar que mais de 80 anos depois das palavras do escritor, ainda somos vítimas de tanta covardia. Lamentando em dobro ter de abordar o tema mais uma vez, escrevo para dizer que estou de luto. Nas últimas 72 horas, em Salvador, duas mulheres foram assassinadas por ex-companheiros que não aceitaram o fim do relacionamento. Uma delas foi morta diante da filhinha de dois anos. A vítima iria completar 21. Somente este ano, na capital baiana, sete mulheres foram assassinadas pelos maridos ciumentos ou pelos ex que não aceitaram o fim do relacionamento.

Me pergunto quando é que isso vai parar e mais uma vez temo que a resposta talvez seja nunca, pois a cultura machista da nossa sociedade persiste em grande parte por culpa de nós mesmas, mulheres. Esta sexta-feira, o luto é em dobro porque além das mortes das jovens baianas, uma mulher que não chegou a ser agredida fisicamente devido à intervenção policial, foi duramente humilhada, hostilizada e agredida moralmente por usar uma minissaia! O duro é que havia mulheres, muitas das quais que devem usar também suas minissaias, engrossando o coro de humilhações e xingamentos ditos à colega da Uniban.

Me assusta que crimes passionais (que de passionais não tem nada, porque matar uma pessoa sob a desculpa do amor é tudo, menos amor) continuem a crescer apesar de toda a luta para conscientizar homens e mulheres sobre o respeito mútuo. A semente da erva daninha do patriarcalismo e da heteronormatividade machista que domina nossa sociedade é das mais difíceis de erradicar. Por mais que se corte, sempre surgem novas ervas venenosas. E tudo isso, sabemos, já foi incansavelmente dito, começa em casa, quando meninas e meninos são criados de formas tão distintas e excludentes.

violencia-mulherDia desses, em um ônibus aqui em Salvador, ouvi o papo de duas jovens estudantes que deviam ter no máximo 19 anos. Falavam de uma terceira colega da faculdade e se referiam a essa moça com adjetivos desqualificativos como “galinha”, “piranha”, “vagabunda” e outros ainda piores. Criticavam o que deveria ser o comportamento liberal da jovem na escolha dos parceiros e faziam isso com um vocabulário e um rancor que lembro de ter ouvido na infância, das vizinhas fofoqueiras que sempre tinham um caso “escandaloso” sobre a filha de fulano para contar. Mas não era a liberação sexual uma das bandeiras da tão incensada década de 60? E agora? Vamos voltar à Idade Média? Lamento que ainda há tantas mulheres que separam outras mulheres em categorias de putas e não-putas, em pleno século XXI! Temo pelo excesso de fanatismo e fundamentalismo xiita que domina o mundo, temo pelo renascimento de regimes totalitários como o nazismo e o fascismo, pois durante a vigência dessas formas de opressão, as mulheres sempre foram tratadas da pior forma possível.

Sejamos brancas ou negras, vermelhas ou amarelas, ricas ou pobres, letradas ou analfabetas, todas ainda somos vistas como seres inferiores, com a nossa sexualidade demonizada por uma parcela considerável da sociedade. “Onde está a tão apregoada emancipação feminina?”, pergunta Giovanna e pergunto eu. É preciso continuar militando no feminismo radical para que tenhamos salários iguais aos dos homens, uma sexualidade tratada de forma tão casual quanto a deles e até para que tenhamos o direito de vestir o que bem quizermos? Mais ainda, é preciso uma revolução feminina ainda mais radical para que possamos deixar de ser mortas por homens que se consideram nossos proprietários?

simbolo_feminino_blogMulheres, “reajam ou serão mortas”. Aqui peço licença para parafresear uma famosa campanha nacional contra a violência que vitima jovens negros. Reajam educando seus filhos homens – e suas filhas mulheres – para respeitar as colegas e não para classificá-las em putas ou santas. Reajam diante de amigos, e das amigas, que fazem comentários pejorativos e depreciativos sobre as mulheres. Reajam contra as revistas que pensam que somos barbies taradas. Reajam contra as letras de música que nos legam um papel inferior, de escravas sexuais da lascívia masculina. Reajam contra as algeminhas cor-de-rosa de pelúcia, coleirinhas e cintas-ligas que tentam nos empurrar nos sex-shops para nos fazer crer que usar um símbolo de prisão (algema!!!) é uma fantasia sexual excelente para apimentar a transa e com isso seremos mais bem resolvidas na cama e fora dela. Reajam contra a homofobia. Reajam contra o machismo. Reajam contra a discriminação no mercado de trabalho. Reajam contra a superproteção paternalista, que subestima a nossa inteligência. Reajam contra a intolerância e, principalmente, reajam contra o medo, o preconceito e o sentimento de culpa que fazem com que muitas mulheres não denunciem os companheiros após uma primeira agressão.

Só unidas, juntas, solidárias umas com as outras, conseguiremos diminuir essas estatísticas alarmantes. Enquanto não nos unirmos, enquanto julgarmos outras mulheres por seu comportamento, mais joices e estefanies, de qualquer cor, qualquer nível sócio-econômico, continuarão sendo privadas de suas vidas e deixando crianças de dois anos órfãs.

Sobre Andreia Santana

Nasci em Salvador-BA, tenho 37 anos, sou jornalista e master em jornalismo on line, traça de biblioteca, cinéfila, pesquisadora de literatura e redes sociais, aspirante a encantadora de palavras, vaidosa, comilona e mãe de um adolescente fascinante.
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